O Livro Branco | Han Kang

A autora abre o livro com uma lista de palavras que remetem para objetos de cor branca, são também, como descobrirá o leitor, a sucessão de títulos dos capítulos que se seguem. A cor branca e os suportes materiais que lhe estão associados são universais, mas basta escrever sudário para convocar referências particulares que ressoam na mente de cada um de forma diferente. Um livro por escrever – ou por ler – é um tempo ainda não vivido, mesmo que se convoquem memórias, nunca se regressa da mesma forma.

O mote do livro é a cor branca: neve, sal, granizo, nevoeiro, cintilância, geada, certos objetos na escuridão. As diversas formas de branco que alimentam as memórias em forma de reflexão poética. O tempo da narrativa é o presente, o da cor branca. Apontamentos curtos, um olhar, um gesto, como o da mulher que, estendendo roupa à janela, deixa cair uma mão-cheia de peças. Um lenço flutua, lentamente, até pousar no chão, é a mais lenta de todas as peças a cair. A autora oferece-nos um momento poético, repleto de nostalgia como só as memórias conseguem encerrar. A nostalgia feita do impossível regresso ao momento em que, ainda não o sabendo, foi surpreendida pela primeira vez.

Han Kang dedica-se ao exercício regenerador de libertar a mente de todas as memórias, porque tudo se nos escapa, teimosamente, por entre os dedos. O sorriso branco de quem luta para se separar de qualquer coisa dentro de si. Para crescer dentro destas histórias, como o fumo que, elevando-se, se dissolve no vazio.

Onde, por muito branco que seja o seu brilho, a sombra preserva sempre um certo calafrio.

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