Ramon Amorim

Chegando ao final de meu doutorado, algumas conclusões sobre as dinâmicas que envolvem as formas como as narrativas brasileiras têm abordado a temática do HIV e da aids começam a ganhar destaque. Chama a atenção, por exemplo, a força da representação simbólica da heteronormativadade na produção de um conjunto de representações ainda pouco diverso.
O termo normatividade foi sistematizado inicialmente pelo crítico literário estadunidense Michael Warner nos primeiros anos da década de 1990. Ele pretendia problematizar a crença hierárquica vigente que entendia a heterossexualidade (e os elementos que participam da sua construção social) como superior às outras formas de sexualidade. A partir dessa lógica, a homossexualidade, por exemplo, estaria fora dos padrões preconizados para uma expressão saudável da sexualidade, logo poderia ser classificada como errada ou até mesmo patológica.
Compreendida dessa forma, a heteronormatividade funciona como uma maneira pela qual muitos sujeitos experimentam a própria expressão da sexualidade e tem sido responsável, em grande parte, pelas exclusões sofridas por grupos inseridos em práticas eróticas que estão fora de sua norma heteroafetiva.
Ao pensar em como a literatura brasileira, principalmente as narrativas, tem construído suas abordagens sobre o HIV e a aids, é fácil constatar como ainda há dificuldade de associar homens heterossexuais ao vírus e à doença. Nas produções analisadas durante o percurso desta pesquisa, apenas duas narrativas que tematizam o HIV e a aids apresentam protagonistas heterossexuais vivendo com o vírus: Enquanto houver vida, viverei, de Júlio Emílio Braz, e Às vezes, de Marlon Souza. Além desses, pode-se citar ainda o romance Amarga herança de Leo, de Isabel Vieira. Aqui, mesmo não sendo o protagonista da obra, o personagem heterossexual com HIV tem importância para a narrativa e seu nome consta do título dela.
Não se pode perder de vista que é o homem (cisgênero) heterossexual o elemento privilegiado das dinâmicas heteronormativas. É visando orientar os comportamentos para a manutenção e valorização dessa expressão da sexualidade que a heteronorma age. Assim, constrói-se a imagem de que esses sujeitos são invulneráveis às doenças de um modo geral e à aids (ou mesmo à infecção por HIV) de modo específico, o que reforça a ideia de que essa é uma questão que diz respeito apenas às alteridades, mesmo que os dados epidemiológicos ofereçam evidências contrárias.
O que se vê, então, no conjunto de obras que analisei é que o estigma sobre a homossexualidade é parte fundamental de uma representação sobre a doença e o vírus que ainda se mantém circulando, mesmo contra as estimativas científicas, preservando, desta forma, a heteronormatividade.