Eu ainda era adolescente quando li A Menina Que Roubava Livros e ainda lembro direitinho as sensações que a leitura me trouxe. Foi impactante e diferente, foi triste. Engraçado que eu me lembro até de sentir frio enquanto lia, o que pode não fazer sentido para vocês, só que é a mais pura verdade. Eu não esperava me sentir outra pessoa após ler O Construtor de Pontes, novo livro de Makus Zusak, mas a história de Clay também me marcou de uma forma inimaginável.
Nesse livro, o narrador não é a morte, e sim um homem comum. Matthew Dunbar é o primogênito da família, irmão mais velho de outros quatro. Depois de perderem a mãe para uma doença fatal, o pai abandona os filhos, deixando uma ferida gigantesca neles. Muitos anos depois, o pai volta pedindo ajuda para construir uma ponte e somente um dos filhos resolve largar tudo (a escola, um amor) para ajudá-lo nessa tarefa misteriosa: Clay. Assim, após um acontecimento que se passa logo nas primeiras páginas, Matthew resolve contar a história de sua família através da história do irmão que abandonou os outros para ir atrás do pai traidor.
O Construtor de Pontes tem um início muito confuso, pois Zusak não utiliza uma narrativa temporal contínua. Ele alterna diversas vezes entre presente e passado, e até que o leitor se situe já se passaram várias páginas. Eu, por exemplo, só fui começar a entender a história lá pela página 200 e só a partir daí comecei me apegar a ela. Confesso que, na maioria das vezes, eu sinto um pouco de raiva quando escritores utilizam esse estilo de narrativa, porque eu gosto de entender tudo o que está acontecendo desde a primeira página. Porém, nesse caso, eu até dei uma perdoada porque o livro é muito mais do que muito bom, no final das contas. Os irmãos, a atmosfera, o casal Dunbar, todos os elementos descritos aqui conseguiram me conquistar de alguma forma, conseguiram ocupar um espaço no meu coração.
Tento imaginar do que essa ponte será feita, mas no fim das contas não faz diferença. Tenho certeza de uma coisa: essa ponte será feita de você.
Devo ser sincera com vocês: quem me vê falando com tanto amor sobre O Construtor de Pontes não imagina que eu estive prestes a abandonar o livro. Isso porque, como eu disse anteriormente, nada faz sentido nos primeiro capítulos — senti como se estivesse lendo apenas frases soltas, não conseguia colocar o menor sentido em nada. O que eu posso dizer para quem está lendo esse livro com esse mesmo pensamento que eu tive é "por favor, não desista". Esse livro é um quebra-cabeças: todas as informações dadas, por mais loucas que pareçam, se encaixam em algum momento e o resultado é realmente impressionante. Acredito que a escrita de Zusak é peculiar a ponto de não existir meio termo, há quem ame e há quem odeie e fim.
O mais interessante desse livro é como ele foi construído. Não há fantasia ou mistério, é apenas a história de um casal que foi destinado a se encontrar para constituir uma família. Poderia ser a história das nossas famílias, quem sabe, mas a diferença está em cada detalhezinho narrado por Matthew. Nem uma vírgula está ali por acaso. A própria ponte, na minha opinião, é uma metáfora para a sensibilidade que existe nas relações humanas, uma forma de chegar até o perdão familiar, por exemplo. Tudo tem um significado: uma máquina de escrever, as teclas de um piano, um velho livro... Tudo faz parte da história desses irmãos tão machucados pelo tempo.
Acho realmente memorável quando um autor consegue sair da bolha de um sucesso anterior, porque tudo o que ele escreve a partir daí é motivo de comparação. Markus Zusak conseguiu sair da bolha de A Menina Que Roubava Livros de forma magistral, gigantesca, com uma escrita que é só dele — e mantendo sua especialidade ímpar em criar narradores fenomenais e personagens que são quase de carne e osso.
Título Original: Bridge of Clay
Autor: Markus Zusak
Páginas: 528
Tradução: Stephanie Fernandes e Thaís Paiva
Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com a editora
