Uma mini-série que tem andado pelas bocas do mundo e ainda bem, porque toca em alguns dos assuntos mais importantes da atualidade.

Poster da série Adolescence

Jamie é um jovem de 13 anos que acaba a ser preso por suspeita de ter assassinado uma colega da sua escola.

Tem 4 episódios, pelo que se vê bastante rápido. A série é um pouco diferente do que se espera, dado que se debruça mais sobre as causas e efeitos do que aconteceu do que, propriamente, no acontecimento em si. De forma resumida, e antes de começar a falar com spoilers - porque vou ter que o fazer -, quero apenas dizer que esta série traz à luz a forma como a Internet está a ter um papel (demasiado) importante, e não muito positivo, em moldar os princípios e visões das nossas crianças. Fala de assuntos que, honestamente, nem eu própria sabia, mesmo que ligados a um nome que todos conhecemos, também não pelas melhores razões (pessoa a quem não quero dar palco, mas que existe no nosso mundo e cujo primeiro nome rima com shoe e último rima com fate). E acima de tudo, mostra porque é que ainda continuamos a precisar de movimentos como o feminismo, porque é que ainda é péssimo existir enquanto mulher no mundo - mais triste ainda, existir enquanto rapariga tão jovem.

Para terminar, até apenas em termos técnicos esta série vale imenso a pena, sendo todos os episódios filmados num plano contínuo. Com mais ou menos de 1h em cada episódio, este é um feito absolutamente incrível.

A partir de agora, irei falar com spoilers porque sinto necessidade de debater vários pontos da série que só quem já viu pode conhecer. Se ainda não viram, aconselho a não continuar. 

No fundo, sinto que esta série se divide em 2 partes: o primeiro episódio incide no crime em si, e os restantes nos fatores que moldaram Jamie e a sua visão do mundo - a escola, a Internet e a sua personalidade, e a sua família que, embora aqui não tenha influência direta, talvez a sua passividade tenha tido. Ainda assim, incomodou-me que esta série tenha feito aquilo que uma das suas próprias personagens criticou: dar palco ao agressor, mas esquecer a vítima. Talvez tenha sido propositado?

O terceiro episódio é, sem dúvida, o melhor da série e, apesar de nada nele me chocar ou surpreender, não sabia que as coisas estavam assim tão mal, a ponto de miúdos estarem tão envolvidos em comunidades tão problemáticas e promotoras de ódio e violência às mulheres. Sabemos que não é ficção e esta série tornou-se ainda mais pertinente depois da notícia que saiu da jovem que foi violada pelos três influencers...

A série não me chocou, mas afetou-me bastante, especialmente depois desta notícia sair. Ler coisas como "grupos de WhatsApp criados por crianças entre os 10 e 13 anos" e perceber que não estamos a criar melhores gerações, que não estamos a fazer por melhorar o futuro da sociedade, que certas coisas estão, na verdade, ainda piores, tem-me feito sentir, por vezes, uma ansiedade tremenda.

Da mesma forma, ver o miúdo da série expressar chavões que não nos são desconhecidos e perceber que nada é ficcional - está a ser complicado conviver com a realização de que não só continua tudo a mesma merda, como na verdade, parece estar pior ainda.

A este propósito, embora apenas parcialmente relacionado, deixo este vídeo muito esclarecedor e factual que reúne todos os números respeitantes à violência doméstica e violência sexual em Portugal nos últimos anos. Recomendo também o mais recente episódio do podcast [IN]Pertinente, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que se debruça sobre os efeitos da utilização do telemóvel e das redes sociais no nosso cérebro, mas incluindo também as consequências especificamente em crianças - onde até esta série acaba a ser mencionada.

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