Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Assisti pela segunda vez “A Malvada” ontem. Em minha memória (assisti ao filme há uns seis anos, acredito) ele figurava como um dos roteiros mais interessantes que eu já tinha visto, e ontem confirmei essa impressão. O longa conta a história de Margo Channing, diva maior do teatro na época, e Eve Harrington, uma aspirante a atriz que se apresenta como fã incondicional da diva. O filme é sobre Eve (o próprio nome, All about Eve, deixa isso bem claro), mas quem rouba a cena é Bette Davis, como Margo Channing, e George Sanders, dono de uma voz de fazer inveja a qualquer um, e interpretando Addison DeWitt, um crítico de cinema extremamente inteligente e ácido (na verdade, para que alguém seja ácido, corretamente ácido, tem que ter uma boa dose de inteligência). Em uma das suas falas, ele fala das suas similaridades com Eve:

“Você é uma pessoa improvável, Eve, assim como eu. Nós temos isso em comum. E também o desprezo pela humanidade, a incapacidade de amar ou ser amados, uma ambição insaciável – e talento. Nós merecemos um ao outro.”

Todo o filme tem um tom fino de ironia, e as interpretações são bem teatrais, fazendo uma rima com o ambiente principal do filme. Em um momento de discussão entre Bill e Margo, por exemplo, em uma festa de aniversário, ambos sobem para o quarto, deixando, seus amigos. Addison lamenta: “Que pena que vamos perder o terceiro ato. Ele vai ser executado fora do palco.”

Quando assisti ao filme pela primeira vez, nada sabia sobre ele, tinha apenas a recomendação de um amigo cinéfilo, dizendo que eu certamente iria gostar. Pelo título em português, e pelo desenrolar do filme, comecei imaginando que a “malvada” seria Margo, personagem que certamente inspirou Meryl Streep a compor a sua interessantíssima Miranda em “O Diabo veste Prada”. Estão lá o olhar cansado e de desprezo, a cabeça sempre meio de lado, expressando desinteresse, o tom meio gutural em algumas falas, a visível consciência da superioridade…

O filme arrebatou seis Oscars, mas é muito mais do que isso. Olhando agora quais ele conseguiu, tinha certeza de que Bette Davis teria ganhado o Oscar de Melhor Atriz. Descobri que “All About Eve” deve ser um caso único na história do cinema, pois recebeu duas indicações ao Oscar de Melhor Atriz (Bette Davis e Anne Baxter, que intepretou Eve) E  duas indicações ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante (as atrizes que interpretaram Birdie e Karen). E o que mais impressiona: não ganhou nenhum!!! Bette Davis perdeu o Oscar para Judy Holliday, por “Born Yesterday”. Não assisti a esse filme, mas tenho a impressão de que foi mais uma na longa lista de injustiças do Academy Award, principalmente se observarmos a outra atriz indicada naquele mesmo ano: Gloria Swanson, a Norma Desmond, de Crepúsculo dos Deuses!

Por falar em Norma Desmond, encontro muita semelhança entre essa personagem, a Martha (Elizabeth Taylor) de “Quem tem medo de Virgínia Woolf?” e Margo Channing. Durante o filme, fiquei imaginando Martha naquele cenário, repetindo o seu bordão (na verdade uma referência a outro filme): “What a dump!”.

Acho que seria um encontro memorável: uma diva do cinema mudo, uma diva do teatro e uma mulher inteligente mas que nunca realizou nada de grandioso – as três em decadência.

Ih! Agora deu vontade de assistir Quem tem medo de Virgínia Woolf e Crepúsculo dos Deuses de novo!

Para terminar, a cena mais tocante do filme, na minha opinião:

Durante uma briga, no aniversário de Bill, Margo, morrendo de ciúmes de Eve, diz que vai para a cama, deixando seu namorado e alguns convidados a observá-la subindo as escadas.
Bill faz então uma pergunta:

BILL: Precisa de ajuda?

MARGO (para de subir as escadas, se vira, sorri, e carrega tanta tristeza na voz que é impossível não se emocionar): Pra me colocar na cama? Tirar minhas roupas, segurar minha cabeça, me cobrir, desligar as luzes e sair silenciosamente na ponta dos pés…? Eve faria isso. Não faria, Eve?
EVE: Se você quiser…

MARGO: Eu não quero.