... «A única passagem na obra de Camões que se poderia invocar como constituindo um documento de fidalguia, aquela Petição de huma nobre moça em que se diz: a eu ser nobre tendo algum respeito, está fora de causa pelo facto de pertencer, segundo as melhores presunções, a D. Álvaro de Lencastre, duque de Aveiro, que também versejava. Versejava e versejava mal. Podiam ser de Camões, que tinha o sentido apurado do epíteto, não falando do ritmo embalador das sílabas sucedendo-se, como numa bica de água as moléculas da linfa, em toada ininterrupta e harmoniosa, estes versos:

    Eu, certo, não duvido que o piloto,
    O mestre, o marinheiro, o capitão 
    Usem do costumado vício roto
    Com todas as que em seu poder vão;
    Dai-me vós, Senhor, um que estê remoto 
    De tal delito, nesta ocasião, 
    E eu direi ser falso o que vos digo,
    Tomando sobre mim todo o castigo.
 
Cidade inclui-a nas Obras Completas de Luís de Camões embora não venha citada no Cancioneiro do Pe. Pedro Ribeiro. José Maria Rodrigues e Afonso Lopes Vieira expurgaram-na da Lírica, imagino que por sua disformidade latente. Em que se estriba o autor meticuloso do Camões Lírico para atribuir a sua paternidade ao mesmo autor da deliciosa canção:

      Com força desusada, 
      Aquenta o fogo eterno...?
 
Aquele eu, eu, tão escarrapachadamente tolo, destoa na lira de Camões. Não participa nada de nada da sua inspiração e mesura.
Pois que nos Disparates e nos Lusíadas verbera aqueles que se prevalecem do nome para levar vida regalada e abusar sem mérito próprio da condição dos humildes, se embraçasse a rodela para proteger a samaritana seria  com outro garbo.
De resto, quando poderia Luís de Camões ter composto esta deprecada em verso? Antes da partida para a Índia, provavelmente não. A essa altura os votos dum fragoeiro, espadachim e libertino dissipador como ele era, seriam a pior recomendação para uma causa destas. No seu regresso da Índia? O poeta tinha mais em que pensar, a publicação dos Lusíadas, os cuidados da saúde, as necessidades da vida, do que arvorar-se em D. Quixote de infelizes e caídas à lama da rua. De resto, a estrutura das rimas é tão má que será aleive atribuí-las ao joalheiro destro e consumado do decassílabo, tornamos a dizer.» ...
                                                  (continua)