"Os anões" de Harold Pinter, demoraram-me um pouco a terminar (para aquilo qiue seria normal para mim). Isto porque não tenho tido tanto tempo como gostaria para ler, mas por outro lado, acho o livro complicado. Muitas vezes tive de voltar atrás pois não percebia a história e perdia-me. 

Por vezes, até pensei em desistir, mas fui resistindo até o egtr terminado. Um autor difícil, mas que afinal é um Nobel. E sim, nem sempre estes grandes escritores são para toda a gente.

Perceber as personagens era meio caminho andado para compreender a história, mas a aparência simples de cada frase e de cada diálogo, sobre o quotidiano destas quatro vidas que se misturam, fazem-me ter aquela sensação de quando acendemos a televisão e apanhamos um filme a meio: mesmo que vejamos o que resta, faltará sempre alguma coisa, existirá sempre um vazio que não ficará prrenchido enquanto não virmos o filme todo desde o início.

Todo o livro é um diálogo entre quatro personagens: Len, Mark, Pete e Virginia. Conversam curriqueiramente sobre tudo e mais alguma coisa: o tempo, a cor dos móveis,  a religião, os sentimentos, a política. Sem se demorarem em qualquer dos assuntos e sem aprofudarem nenhum dos temas. As interjeições são frequentes e enriquecem os diálogos, mas também me baralham, porque muitas vezes não percebo se um "Hum" é de concordância ou de discórdia. As personagens também são muito dúbias, não as consigo caraterizar, não consigo percebê-las. A mim, parece-me que Virginia é uma mulher da vida. No entanto, a sua paixão é com Pete, seu companheiro.

"- Mas gostas dele, não gostas?
- Se gosto dele? gosto dele pois.
Pete cortou um tomate às rodelas e deitou um pouco de sal na beira do prato.
- Ele sabe escutar - disse Virginia.
- É um reaccionário. é o que ele é. Outro dia tentou convencer-me que a solução para os meus problemas era ir para a cama mais vezes contigo. (...)
- Quer dizer que lhe disseste que não fazemos amor muitas vezes?
- Disse.
- Oh.
- Porquê? Importas-te?" (capitulo três)

Pete divaga longamente sobre temas vãos:

(...) "Sou o mais possível a favor do comportamento natural dos quartos, portas, escadas, tudo. mas não me posso fiar neles.. Quando, por exemplo, olho pela janela de um comboio, à noite, vejo as luzes amarelas, muito nítidas, vejo o que elas são, e vejo que estão paradas. Mas só estão paradas porque eu estou em movimento. (...) Por isso devem estar relativamente imóveis, pela sua própria natureza, uma vez que a própria terra está imóvel, o que, claro, não é verdade (...) Estou sentado num canto. Estou imóvel. Estou, talvez a ser mexido, mas eu não me mexo. E as luzes amarelas também não. O comboio mexe-se é certo, mas que tem um comboio a ver com o caso?" (capítulo 2)

E mais uma anotação: não encontrei anões. Serão anões as personagens principais? Se são, onde - porventura passei esse excerto sem lhe dar atenção - isso está descrito? Ou será que pelo título ser esse, subentende-se que esses são anões e que temos de pensar e agir como assim sendo? Perdida pelas divagações e pelas dúvidas, folheei página a página até ao fim do livro. Voltei atrás. Marquei entradas que me agradaram. E acabei de ler, mas sem encontrar o meu fio de meada. Uma relação terminou - ou talvez esteja apenas um impasse; dois amigos zangam-se e dizem tudo o que pensam um ao outro - mas quando se é amigo, as verdades são apenas isso e é bom que sejam ditas, diretamente, sem secretismos. Pois são esses secretismos que minam uma amizade. A amizade não acaba. Um dos amigos adoece, mas nem isso o impede de continur a ser o conquistador nem de manter todas as suas atitudes como até aí.