Ela sempre vai nos achar. Na esquina, no canto, no fundo. Do poço ou da alma, pouco importa. Maria Paula Curto* Quando o céu ainda está meio violeta, o silêncio paira. Mas basta o azul dominar e começa o zum zum zum da vida acordando. Jovens a caminho da escola, arrastando os corpos com cara de sono e passos de quem ainda pode se dar ao luxo da demora, do atraso. Eles têm tempo de sobra. Estão cheios de futuro. Nas mesmas calçadas, surgem idosos com passadas ritmadas, cumprindo o cronograma de exercícios estipulado pelo cardiologista, respirando o que ainda resta de possibilidades e botando pra fora aquilo que um dia foi possível viver. O que deu para ser. Plenos de passado. E com algum remorso do que poderia ter sido. Mas não foi. Entre eles, passam trabalhadores, uniformizados ou não, correndo para bater o ponto, com as camisas surradas e suadas por conta do ônibus lotado, do trem apertado, da vida espremida. Descarregando os caminhões de comida que vão para o estoque e para os estômagos que jamais serão os deles. Atolados de um presente tão cruel quanto esse sistema exploratório que insistimos chamar de “sociedade”. Foto: reprodução. Ao meio-dia a esquina está repleta de gente bem arrumada, com blazers e saltos, bolsas de couro e óculos de sol, de marcas ou do camelô de outras esquinas. Não dessa. Essa não comporta camelô. Não combina com a paisagem hipster local. Não orna. Hora da pausa do almoço e de colocar a fofoca em dia. Contar sobre o fim de semana movimentado e alegre, com família e amigos, que todos tiveram. Sem perrengues, nem insônias, nem dor. Apenas felicidade. Forjada na base do gin, do sorriso forçado ou do tarja preta na gaveta. Mas isso ninguém conta. Não combina com as fotos e os rostos sorridentes. Não condiz com o status dessa galera. O problema é que o almoço vai acabar, o expediente também e, na volta, o comprimido estará lá na mesma gaveta, à nossa espera, sem trégua. Junto com a solidão no assento do sofá. À espreita. Da primeira lembrança, do primeiro deslize, de um pequeno descontrole. É só deixar solto por um minuto e, bimba, ela nos pega. Não tem jeito. A gente pode tentar disfarçar, maquiar, esconder. Ela sempre vai nos achar. Na esquina, no canto, no fundo. Do poço ou da alma, pouco importa. Às 14 horas, o movimento dos endinheirados supostamente felizes começa a diminuir. É hora de voltar para as mesas, para os micros, para os quadrados de vida em que nos enfiamos. É também nesse instante do dia que aparece o Zé. Com um dos seus cinco filhos. E sua plaquinha pedindo ajuda. Um pouco de arroz e feijão, macarrão, um pouquinho de leite para o caçula, um pacote de biscoito, um doce ou um trocado. Ah, pode ser o resto do almoço sim. Tá valendo. Aliás, é até melhor, pois mesmo fria, a comida já vem pronta e Zé não tem dinheiro pro gás. Gás tá muito caro. Muito caro. Dá pro Zé não. Nem pra ele nem pra ninguém que vive na ocupação do centro. O lugar que ele encontrou para viver com sua esposa e filhos, desde que veio do interior da Paraíba tentando uma vida melhor. E Zé continua tentando. E enquanto a vida melhor não chega, vive com a que lhe deram. Ruinzinha sim, bem ruinzinha. Mas fazer o quê, não é mesmo? É o que Zé tem para o momento. Depois das 18h, chegam os jovens – ou aqueles que se esforçam em parecer jovens – e se espalham pela calçada. Passam a noite com copos na mão e histórias nos dedos. Como mágicos do cotidiano, vomitam suas poções de ilusões aos berros ou aos sussurros para interlocutores próximos ou distantes, desde que potencialmente seguidores, nessa cartola virtual chamada “mundo instagramável”. De dentro, não saem coelhos, mas flashes de vida em conserva. Repleta de acidulantes. E com prazo de validade vencido. De madrugada, após a limpeza das mesas e calçadas, a rua volta ao seu silêncio. Até que um novo ciclo se inicie. E a Ferreira de Araújo volte a pulsar. Plena de vida. Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP. Publicado por André Vieira Jornalista gaiato e poeta-menor. Escrevo pequenas notas e algumas reportagens quando a missão vem à baila e engano — bem — na arte milenar do hai-cai fixo. Não gosto que cebolas toquem no purê de batatas. E sim, amigos, é bolacha e não bixxcoito. Ver todos os posts de André Vieira