Um clássico retrato do racismo brasileiro, Marrom e Amarelo narra a história de dois irmãos gaúchos muito diferentes não só em suas personalidades intensas, mas também na aparência física. Lourenço, é um negro, charmoso, modelo e jogador de basquete, a extroversão em pessoa. Enquanto seu irmão mais velho, Federico, é pardo, introspectivo, mas muito inteligente e comprometido com causas sociais. Com certa pitada regional, o autor conta anos e causos da vida desses irmãos, que têm uma relação digna de novela das nove.
No começo da trama, conhecemos um Federico em primeiro ponto de vista, morador de Brasília e membro de uma comissão que decidirá o futuro das cotas raciais no ingresso de universidades públicas nacionais. Esse começo político, é sem dúvidas a melhor parte do livro. Discussões e diálogos muito bem construídos mostra como a atual capital do Brasil é um centro de disputas de interesses pessoais e de partidos políticos, bem diferente do que deveria ser o lugar onde os rumos do país são tomados. Dotado de muita sabedoria, Federico defende suas opiniões e tem colegas igualmente brilhantes, o que tornam essas primeiras páginas um prato cheio para os amantes de política.
Entretanto, páginas depois, a narrativa começa a mesclar o passado e o futuro de Federico, nos levando entre Porto Alegre e Brasília diversas vezes. Talvez por isso, ganhamos confusões temporais em meio a diálogos construídos sem pontuação indicativa (travessões ou aspas, por exemplo). Confesso que tinha expectativas menos fictícias com esta leitura, mas mesmo assim, ainda não sabendo exatamente onde estava na cronologia da vida de Federico, consegui aproveitar e entender um pouco sobre a rotina de negros e mestiços no Sul do Brasil. Realidade que certamente não era fácil em 1980 e não é em 2020.
Apesar dos dois protagonistas homens, diversas passagens sobre casos de racismo e muitas partes onde a polícia militar vira a estrela da cena, o livro têm mulheres icônicas. A filha de Lourenço, Roberta, é uma ativista ferrenha com um dom para atrair confusões com a polícia a mesma medida que transforma a realidade a sua volta. A ex (não tão ex assim) de Federico, Bárbara, em cada linha traz a sensualidade e sensatez de uma psicóloga brilhante.
Com um final inconclusivo, mas muito emocionante, me despedi da escrita de Paulo. Muito diferente do que estava acostumada, mas certamente carrega seu brilhantismo. Como negra, sinto que não foi uma obra sobre racismo que me trouxe novos insights, mas aos que começaram a enxergar o racismo e seus malefícios há pouco, certamente será uma leitura rica e emocionante.
Título Original: Marrom e Amarelo ✦ Autor: Paulo Scott
Páginas: 160 ✦ Editora: Companhia das Letras
Livro recebido em parceria com a editora
