03

Set25

Maria do Rosário Pedreira

Uma vez, uma rapariga que me tinha enviado um original para apreciação ficou muito revoltada por eu lho ter recusado ao fim de apenas umas vinte ou trinta páginas. O seu principal argumento para não aceitar o meu veredicto era ter sido muito boa aluna a Português. Mas boas notas não chegam para se ser escritor; e, se alguns autores de não-ficção até podem tornar-se escritores muito competentes e com rasgo (conheço alguns), a verdade é que para o escritor de poesia ou ficção o talento é mesmo necessário, e isso nada tem que ver com saber gramática (embora ajude). Um dia destes, de resto, li por aí que, pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, um menino russo chamado Joseph Brodsky recebeu do professor um relatório escolar impiedoso. Além de o acusar de ser mal-educado e preguiçoso, dizia que o aluno raramente fazia os trabalhos de casa, que tinha os cadernos desorganizados e sujos e que a sua letra não passava de um monte de rabiscos. Ao que parece, Brodsky odiava a escola soviética, demasiado disciplinada e repetitiva, e deixou os estudos bastante cedo. Mas, se os professores não o conseguiram cativar, como ele confessou mais tarde, "as fachadas dos edifícios ensinaram-me mais sobre os egípcios, os gregos e os romanos do que qualquer sala de aula". Mesmo fora da escola, Brodsky apaixonou-se pela arte e pela poesia e foi justamente pelos seus poemas contrários ao regime de teve de exilar-se. Pouco depois de ter ido viver para os EUA já cometia a proeza de escrever poesia directamente em inglês. Em 1987 ganhou o Nobel da Literatura. Ter boas notas é importante para muita coisa, mas para ser escritor... não tanto.