Com a nova capa inspirada no livro, Se a Rua Beale Falasse pode passar a mensagem de uma história de romance entre dois protagonistas negros, mais um romance entre outros. Se você conhece um pouco da sinopse, já repara que o buraco é mais embaixo. Mas se você lê… Essa foi a minha primeira experiência com James Baldwin, e eu tenho algumas coisas para falar sobre.
Se a Rua Beale Falasse traz Trish e Alonzo. Os dois se conhecem desde a infância numa Nova York dos anos 1970. Trish e Fonny crescem juntos e nunca tinham se visto como parceiros de vida, até que em determinado momento as coisas mudam de figura e eles engatam em um namoro. Os dois estão planejando se casar quando, infelizmente, Fonny é acusado de estuprar uma mulher. Nisso ele obviamente é preso, mas Trish e sua família sabem que Fonny não foi preso justamente.
O livro é narrado de uma forma extremamente informal. Parece que você tá conversando com a Trish e ela tá te contando o dia dela, as coisas que aconteceram e etc. Algumas vezes temos um certo vislumbre do que Trish imagina que Fonny está pensando e fazendo na cadeia. É uma narrativa diferente, não só por isso, mas pela forma como as situações são abordadas. Nunca tinha lido algo assim e foi interessante, mas desafiador porque eu li Se a Rua Beale Falasse num momento em que meu ritmo de leitura não tá dos melhores.
O clímax da história é o fato de Trish descobrir-se grávida (isso não é spoiler tá), e isso motiva o casal a tentar o mais rápido possível tirar Fonny da cadeia. Mas é claro, estamos nos Estados Unidos, na década de 70. O preconceito racial é o principal tema aqui. A polícia não tem provas contra Fonny, mas ele acaba indo parar na cadeia porque é negro. Sério. Outro personagem que deixa bem clara essa crítica na história é Daniel, mas ele eu vou deixar que vocês conheçam sozinhos.
Outro ponto da narrativa é que não existe a divisão de capítulos aqui — uma coisa que me incomoda muito —, mas eu entendo o ponto do autor porque isso faz com que “a conversa” que a personagem tem com você seja mais direta, a única mínima separação que temos é um espaço um pouco maior quando a narradora muda de assunto. E como é essa conversa, as mudanças temporais (presente e passado) acontecem do nada, tem que prestar atenção.
Foi uma leitura diferente, tanto pela escrita quanto pelo protagonismo e o estilo de protagonismo. Temos dois negros de classe baixa, e um deles está preso injustamente. Às vezes se torna bem angustiante acompanhar a história porque você fica “CADÊ MEU FINAL FELIZ”, “por que o mundo é assim?”. E o final é bem repentino, eu literalmente fiquei ué!? Mas é bem real.
Se a Rua Beale Falasse fugiu do que eu costumo ler, mas eu cheguei no final com a sensação de dever cumprido. É claro, pensando em como algo que James Baldwin escreveu na década de 70 pode — ainda — ser realidade.
Título Original: If Beal Street Could Talk
Autor: James Baldwin
Páginas: 224
Tradução: Jorio Dauster
Editora: Companhia das Letras
Livro recebido em parceria com a editora
