Provavelmente eu nem repararia na existência desse livro não fosse o clube de leitura da Pam Gonçalves, o @pamdle ― aqui, a Pam indica pra gente ler apenas obras disponíveis no Kindle Unlimited, o que é uma mão na roda para quem assina o programa ou o pontapé para quem tem vontade de assinar ―, simplesmente porque não sou muito de ler thriller psicológico. Esse gênero costuma me deixar muito ansiosa, então tento evitar. Mas enfim, resolvi aceitar esse "desafio" e sinceramente não consigo dizer com clareza o que senti por Nem Tudo Será Esquecido.
A história gira em torno de uma adolescente de 16 anos que foi estuprada durante uma festa. Algumas horas mais tarde, depois de passar por várias cirurgias no hospital, os médicos dão um medicamento para Jenny para que as lembranças da violência fossem simplesmente apagadas de sua memória. Porém, por mais que a garota não conseguisse lembrar de nada, algo muito ruim impregnava o seu corpo de forma insuportável, então Jenny chegou a conclusão de que era preciso lembrar para conseguir esquecer.
A primeira coisa que super chama atenção nesse livro é o narrador: apesar de a história ser, teoricamente, sobre Jenny Kramer, quem narra todos os acontecimentos é um homem que sabe tudo sobre o caso ― inclusive detalhes sobre o estupro, que ele faz questão de expor logo nos primeiros capítulos. Dada essa informação, devo alertá-los dos milhares de gatilhos contidos em Nem Tudo Será Esquecido. Como o narrador é onisciente, ele é portador dos detalhes mais absurdos sobre as pessoas que estão envolvidas na história. Por exemplo, em certo ponto do livro, um suicídio foi descrito com tanta clareza que eu me senti enjoada.
Então é aquela coisa, acho que o leitor tem que estar 100% preparado psicologicamente para ter acesso à essa leitura. Imagino a angústia que uma pessoa que já foi violentada/abusada sexualmente sentiria com os detalhes expostos. Não consigo nem pensar em uma pessoa que já tentou suicídio ou que está deprimida lendo basicamente um passo a passo de como fazê-lo. É, de verdade, uma leitura para se ter cautela.
Logo no início também somos apresentados a alguns personagens importantes, como os pais de Jenny. Infelizmente a mãe da garota mal tinha aparecido e eu já não gostava dela. A sensação que eu tive e ainda tenho, é que ela estava muito mais preocupada com o que as pessoas iam falar da filha & da família num geral do que com o bem estar da menina. A raiva só foi aumentando enquanto vários segredos da mulher iam sendo expostos pelo narrador ― o que faz bastante sentido para uma pessoa que vive de aparências. rs
E por falar nele, o próprio narrador também não deixa de ser um personagem, talvez até mais importante que Jenny. Ele vai alternando a história entre passado e futuro, incluindo pessoas e fatos, de modo que a trama se tornou uma imensa colcha de retalhos. Digamos, também, que ele não é o ser humano mais adorável da face da Terra: se eu já odiava o narrador no começo, passei a odiá-lo ainda mais na medida que o crime contra Jenny ia sendo solucionado. Além de tudo, as ações dele simplesmente não condizem com quem ele é.
O final eu realmente não esperava. Por causa disso, posso dizer que Wendy Walker surpreendeu. Acho que um autor precisa ser realmente muito bom para fazer o que ela fez com a narrativa de Nem Tudo Será Esquecido. Ainda sim, pelos diversos fatos que citei anteriormente, é uma leitura controversa. É por isso que não sei o que pensar dela, principalmente porque me causou muita angústia e incômodo. Para quem gosta desse tipo de livro e não é atingido pelas sensações, acredito que seja uma boa pedida, sim.
Título Original: All Is Not Forgotten
Autora: Wendy Walker
Páginas: 288
Tradução: Maryanne Linz
Editora: Planeta
