A vida que Eduard e Charlotte levavam era tranquila e satisfatória, até o dia em que Eduard decidiu trazer seu amigo, o Capitão, para passar um tempo morando com eles. Mesmo com a insatisfação de Charlotte frente a essa proposta, Eduard, acostumado a sempre ter seus desejos atendidos com prontidão, traz o amigo para o convívio do casal.

Aproveitando a ocasião e tendo sido vencida pelas vontades do marido, Charlotte traz sua sobrinha (filha por consideração) para também viver com eles. Ottilie, que antes vivia em um pensionato, mas que não tem obtido bons resultados nos estudos, vem para ajudar nos afazeres da casa.

O que antes eram dois, agora são quatro, convivendo e interagindo. A rotina do casal é afetada e as relações se tornam mais confusas. Eduard se sente imediatamente atraído por Ottilie. A jovem garota, com sua mentalidade mais infantil, encanta Eduard. Vale lembrar que era costume que homens mais velhos se juntassem a moças mais jovens. Inclusive, no livro, fica claro que o nível de maturidade de Eduard combina mais com o de Ottilie do que com o de Charlotte, que tem a mesma idade que ele e que, portanto, é considerada velha demais para ele. 

Dessa forma, Eduard encontra em Ottilie essa figura com quem ele consegue se vincular e interagir com naturalidade. E por mais que o leitor tenha todas essas explicações que supostamente justificam a atração que Eduard sente por Ottilie, é inevitável nos sentirmos enojados com essa relação que nos remete não apenas a incesto, como também a pedofilia. Lembrando que a idade de Ottilie não é revelada em nenhum momento, mas tudo indica que ela seja muito nova. 

Assim se dá o envolvimento de Eduard e Ottilie. No entanto, bem mais confuso e difícil de explicar é o envolvimento de Charlotte com o Capitão. Ambos são bem mais maduros e contidos em seus impulsos. Fato é que ambos também passam a se gostar e as relações ficam bastante confusas. Há no livro um momento em que os personagens conversam sobre Química e o título do livro é explicado. Esse foi um dos capítulos que eu mais gostei de todo o livro. A conexão que Goethe fez entre o princípio da Química e as relações humanas é realmente genial e encanta qualquer leitor. 

Com toda essa genialidade, confesso que eu esperava que o livro fosse partir de uma premissa simples para gerar reflexões mais profundas. Porém, não há tanta profundidade assim. Ao longo do livro, vamos acompanhando os desdobramentos dessa situação e todos os efeitos gerados pela intervenção dessas duas pessoas dentro desse relacionamento. 

Me incomoda a forma como Eduard e Charlotte são retratados como vítimas passivas, como se eles não tivessem culpa alguma pelas coisas que acontecem. Como se a responsabilidade fosse apenas de Ottilie e do Capitão. Eduard é completamente detestável, ele é mimado, imaturo e egoísta. Felizmente, hoje, homens como Eduard não são mais enaltecidos. É interessante ver como essa imaturidade masculina era naturalizada antigamente (não tão antigamente assim). O papel dos homens nessa obra é o de causar estragos. É difícil saber quais eram as reais intenções do autor quando ele escreveu essa obra. Afinal, o romance foi escrito no começo de 1800, na Alemanha, contexto que pouco conhecemos.

A obra funciona muito bem como um retrato da época, como uma forma de entrarmos em contato com os valores e os costumes estabelecidos nessa sociedade. Goethe é mestre em retratar sociedades de forma muito vívida e transportar o leitor para seus cenários. Aqui não é diferente. Houve momentos em que eu precisei parar a leitura para respirar e me acalmar da raiva e do nojo que eu estava sentindo pelo Eduard. 

O papel exercido pelas mulheres na obra é de extrema passividade. São raros os momentos em que elas tentam se posicionar e, mesmo quando isso acontece, suas vontades não são respeitadas. Por outro lado, a força feminina também é retratada na obra. Há momentos em que vemos Charlotte é Ottilie precisando agir sozinhas, sem nenhum apoio. Esses momentos me lembraram outra obra fantástica, E o Vento Levou, justamente por mostrar mulheres sendo fortes mesmo sem nada a favor delas. 

Eu adoro a escrita do autor e dessa vez não foi diferente. A leitura fluiu muito bem, o livro conseguiu despertar emoções intensas em mim, me revoltou e me causou angústia. Apesar de ser revoltante algumas coisas, não posso ignorar que o livro foi escrito em um contexto completamente diferente do atual. E é justamente por isso que a leitura vale a pena, porque ela nos coloca em contato com outra realidade. E eu defendo o argumento de que se um livro consegue fazer você sentir com intensidade é porque o livro é bom (independentemente de qual emoção ele te desperta).

A edição segue o padrão da Penguin, que eu particularmente adoro. Não é um livro grande, os capítulos são curtos e a quantidade de texto por página é boa. As Afinidades Eletivas é uma leitura gostosa e rápida que dificilmente será esquecida. Não é o meu favorito do autor. O favorito continua sendo Os Sofrimentos do Jovem Werther. Porém, certamente é uma boa leitura.

Título Original: Die Wahlverwandtschaften 

Autor: Goethe

Páginas: 328

Tradução: Tercio Redondo

Editora: Penguin

Livro recebido em parceria com a editora