Eu me lembro que, há alguns anos, tentei ler A Lista Negra, mas parei antes da página 50 por estar achando a história muito parada. Ainda assim, unicamente pelo tema proposto, resolvi que daria mais uma chance para Jennifer Brown com Amor Amargo. Acredito que, do fundo do meu coração, eu nunca li um livro tão pesado, triste e real em toda a minha vida.
Alex é uma adolescente como qualquer outra: está no último ano do colégio, trabalha meio expediente em uma lanchonete da cidade onde mora e não vê a hora de se formar para visitar o Colorado junto com seus melhores amigos, Bethany e Zach. O lugar foi escolhido com um propósito: a mãe de Alex morreu em um acidente de carro quando estava indo para lá. Alex, Zach e Beth praticamente vivem para essa viagem: só falam nela e se encontram todo fim de semana para acertar os detalhes. Tudo vai muito bem, obrigada, até que Alex começa a dar aulas particulares para Cole.
O aluno novo é exatamente o tipo de cara que toda garota sonha em ter como namorado: romântico, se mostrava sempre muito gentil e atencioso. Ele até musicou um poema de Alex para demonstrar o seu interesse por ela... Parece um sonho, não é mesmo? Tanto que, num piscar de olhos, a protagonista se viu perdidamente apaixonada por Cole. No começo ela realmente vivia um Conto de Fadas, mas não demorou muito para sua vida se tornar um filme de terror.
Ainda que estivesse magoada, constrangida, humilhada e indignada pelo que tinha feito comigo, continuava louca de amor por ele. Continuava pensando que tínhamos sido feitos uma para o outro. Continuava desejando-o. Eu tinha estragado tudo.
Com o passar das páginas, Cole mostra quem é de verdade: um garoto ciumento, possessivo, controlador. Não precisou muito para eu perceber que o garoto não era nem um pouco normal: logo no começo do relacionamento dos dois, quando Cole passava o dia inteiro de olho em Alex — ele passava o dia inteiro no trabalho da menina sem fazer nada, só olhando para ela! —, eu sentia que tinha algo de muito errado acontecendo. Depois de pouco tempo, Cole começou a ficar explosivo e não conseguia controlar seus impulsos.
O que mais chama a atenção em Amor Amargo é que o ciclo do relacionamento abusivo é retratado com perfeição. Primeiro temos um cara carinhoso que se torna agressivo. No começo são "só" ofensas e, quando ele parte para a agressão física, a vítima tem certeza absoluta que ela fez alguma coisa de errado. Depois, o agressor pede desculpas, chora, pede pelo amor de Deus para a garota não abandoná-lo. Promete que nunca mais vai acontecer. É aí que acontece mais uma onda de explosão. Agride. Manda flores. Pede perdão. Promete...
A principal característica de um abusador é fazer a vítima se sentir dependente. Alex sentia que era impossível ser feliz sem Cole, mesmo com as agressões. Apesar de todo o medo que ela sentia, ela não tinha coragem de contar o que estava acontecendo para ninguém porque maior que o medo da agressão, era o medo do abandono. Para o agressor, virar o jogo é fácil: além de culpar a vítima por tudo que o faz perder o controle, ele vai se vitimizar, falar dos seus problemas, dos abusos que ele mesmo sofre.
Um ponto importante para destacar é que por mais que o agressor tenha sofrido no passado ou presente — no caso de Cole, ele cresceu vendo seu pai destratar sua mãe e a autora também deixa a entender que ele sofre diversos abusos psicológicos por parte do pai —, nada justifica uma agressão. Não importa se ele está reproduzindo algo que viu ou sofreu. Isso serve para tentar mostrar como a pessoa adquiriu essa personalidade, mas não devemos esquecer quem é o agressor.
E, por mais sombrio que fosse o mundo atrás das pálpebras, nem de longe parecia tão sombrio quanto o mundo com o qual me depararia se voltasse a abri-las.
Não sei se existe uma palavra para exprimir o que eu senti durante a leitura. Provavelmente a que chega mais perto é revolta, mas misturada com sofrimento, dor, tristeza. Não sei se existe uma expressão que contemple tudo isso. Eu lia com desespero, porque eu queria chegar logo no final, só porque eu tinha certeza que alguém ia conseguir ajudá-la. Quem já passou por uma situação parecida, mesmo sem incluir agressão física, sabe o quanto sufoca e machuca.
Jennifer Brown conseguiu mostrar até mesmo o sentimento de confusão que a vítima sente. É complicado, porque a gente sabe que está errado, que um namorado não deve falar coisas tão ofensivas para uma namorada, muito menos bater nela, mas ao mesmo tempo a gente não consegue entender o porquê de continuar gostando tanto da pessoa e ainda querer continuar com ela. A sensação de vazio ao pensar em ficar sem a pessoa é tão grande que é mais fácil aceitar que é melhor ficar mal acompanhada do que só.
Apesar de funcionar como um alerta — inclusive nas últimas páginas existem informações muito esclarecedoras sobre relações abusivas —, eu preciso falar que para ler Amor Amargo a pessoa tem que ter um psicológico muito forte. Se você leu apenas essa resenha e se identificou com a personagem Alex, procure ajuda, você não está sozinh@. Ninguém merece ser maltratado. É sempre bom lembrar que, além da vítima nunca ser a culpada, amor é sinônimo de felicidade, não de tristeza e medo.
Título Original: Bitter End
Autora: Jennifer Brown
Páginas: 256
Tradução: Guilherme Meyer
Editora: Gutenberg
Livro recebido em parceria com a editora
