A minissérie derivada de Bridgerton, Rainha Charlotte, estreou a pouquíssimo tempo na Netflix e já é uma das séries mais assistidas na plataforma. Com seis episódios, narra a história da monarca interpretada por Golda Rosheuvel. É uma das personagens mais marcantes de Bridgerton, pois além de ser forte, decidida e empoderada, revolucionou a corte britânica ao se tornar a primeira rainha negra do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda.

Nessa nova série, a personagem de Rosheuvel retorna com uma grande problemática: sua única neta faleceu e nenhums dos seus 13 filhos possui herdeiros, o que significa que sua linhagem está em risco. Enquanto tenta a todo custo fazer com que seus filhos se casem e tenham seus próprios filhos, acompanhamos, em outra linha do tempo, a história da chegada da jovem Charlotte (India Amarteifio), uma aristocrata alemã, à corte do rei George III (Corey Mylchreest), homem com quem vai se casar sem ao menos conhecer. 

A minissérie começa com Charlotte vendo seu irmão fechar o acordo para ela se casar com o rei George III. Apesar da pouca idade, ela não é idiota: a troco de que o rei procuraria uma noiva tão longe, em uma região praticamente desconhecida? Ela sente um incômodo no ar, mas depois do seu primeiro encontro com George, em um momento deveras desconcertante, Charlotte deixa suas desconfianças de lado. Mas é claro que realmente existira algo, não é mesmo? Afinal, estamos no universo Bridgerton, assistindo a uma produção de Shonda Rhimes, a própria rainha do drama. Então não demora muito para que a nova rainha descubra o segredo mais sombrio do rei, segredo este que pode colocar não só o casamento em risco, mas a Coroa também. 

Apesar da obra de Shonda Rhimes ser ficcional e ter inúmeras liberdades criativas, o rei George III realmente existiu e se casou com Sophie Charlotte de Mecklemburgo-Strelitz, que, segundo inúmeros historiadores, teria origem moura e, portanto, não seria branca. Dessa forma, o segredo do rei George III não é de fato um segredo, ao menos não para nós: fontes históricas confirmam que ele sofria de algum transtorno mental, ainda que não saibamos exatamente qual. Muitos acreditam que a instabilidade mental do rei foi resultado de um distúrbio hereditário chamado porfiria, enquanto que outros sugerem que ele sofria com transtorno bipolar. 

Assim, ao recriar o passado de Charlotte, Rhimes nos deu a possibilidade de compreender um pouco mais do relacionamento entre eles, as consequências do transtorno mental do rei nesse casamento e, acima de tudo, a transformação na alta sociedade do universo de Bridgerton. Para ajudar na construção da história, outras personagens conhecidas da série original aparecem em suas versões jovens: Lady Agatha Danbury (Arsema Thomas), Lady Violet Bridgerton (Connie Jenkins-Greig) e até mesmo o fiel escudeiro da rainha, Brimsley (Sam Clemmett).

Eu gostei demais da forma como a narrativa da série foi apresentada, mesclando passado e presente. O foco é trazer a origem da rainha Charlotte e sua história de amor, que foram maravilhosamente bem representadas, mas os momentos atuais trouxeram algo que, talvez, Bridgerton tenha deixado ligeiramente a desejar: um maior desenvolvimento de personagens como os que eu citei no parágrafo anterior. Na minha cabeça, muitos comportamentos, decisões e até mesmo a personalidade de Lady Danbury e Violet, por exemplo, ficaram imensamente mais claros com esse spin-off. Também é possível traçar um paralelo, visto que muitas coisas do presente tanto de Rainha Charlotte quanto de Bridgerton são justificadas à medida que narrativa do passado vai sendo destrinchada. 

Obviamente não vou mentir para vocês: minhas partes preferidas foram, de fato, as que mostraram o desenrolar do romance entre Charlotte e George. É linda demais, ao mesmo tempo em que é triste demais. Apesar de ser um casamento arranjado, algo que era muito comum para a época, podemos dizer que foi uma união bem sucedida. Diferentemente de Lady Danbury, que não amava o marido e foi prometida à ele com 3 anos de idade, Charlotte teve amor em seu casamento mesmo sendo fruto de um contrato. Ou seja, as dificuldades não estavam na ausência de amor, e sim em outras questões, como a doença do George, questão que foi extremamente bem retratada por Corey Mylchreest. 

Inclusive, a química entre o casal é maravilhosa. Acredito que o amor tenha sido construído aos poucos, mas desde o primeiro encontro é notável que eles sentem uma fagulha. Eu adoro como essas questões são mostradas em Bridgerton, e ver isso em Rainha Charlotte foi um acalento para o meu coração. George desejava tanto ser curado para ficar com Charlotte, tinha tanto medo de não ser aceito como era e de magoá-la de alguma forma, que se submeteu a tratamentos extremamente duvidosos para alcançar esse objetivo... Mas nesse caminho, que ele achava ser o certo, acabou se machucando e, consequentemente, machucando Charlotte. Tem inúmeras cenas emocionantes que retratam isso, mas a mais marcante para mim é quando a personagem questiona o rei se ele a ama, porque se existir amor, basta para que ela fique ao lado dele e o ajude a superar os momentos difíceis. 

Pensando no romance como um todo e lembrando das cenas do presente, não consigo deixar de pensar como deve ter sido difícil e solitária a vida da Charlotte. Ela é forte e decidida porque foi obrigada a ser forte e decidida desde muito nova, uma vez que precisava se manter firme para conseguir lidar com as instabilidades de George. Por consequência disso, ela se sente muito sozinha na maior parte do tempo, e essa solidão é de fato muito bem representada na série. Eu não consigo nem imaginar como é amar uma pessoa, saber que é amada, mas viver sabendo que esse amor, de uma certa forma, tem uma data de validade — em Bridgerton sabemos que algum acontecimento levou o rei a nunca mais voltar de uma de suas crises. 

É claro que Rainha Charlotte tem várias outras camadas, como o relacionamento entre Brimsley e Reynolds, o homem de confiança do rei; o papel das mulhere na sociedade e como, de certa forma, por mais que tivessem uma posição infinitamente menor, tudo só acontecia porque elas estavam agindo por debaixo dos panos; o peso da linhagem de Charlotte e George, justamente por ela ser a primeira rainha não-branca e, atrelado a isso, a representação do racismo na sociedade. 

Rainha Charlotte não é apenas um spin-off, sabem? Ao meu ver, não foram poupados esforços para contar essa história que, de verdade, foi representada de uma forma muito linda. Inclusive, tive oportunidade de ler o livro homônimo, uma parceria entre Shonda Rhimes e Julina Quinn, e foi um complemento maravilhoso, indico muito para quem assistiu e gostou. Mas a verdade é que não consigo dizer se Rainha Charlotte é melhor que Bridgerton... 

Gosto muito das duas produções, do fundo do coração. Porém, sinto que, por causa da doença de George e as consequências dela, e por causa da transformação da alta sociedade britânica, Rainha Charlotte acaba tendo um tom mais sério, mais importante. Essas questões, aliadas às tantas coisas que gostamos em Bridgerton que também estão presentes na minissérie, como a crescente nos relacionamentos, a sensualidade sob a perspectiva do feminino, o drama — nunca superarei a última cena dessa série, nunca — e um elenco de tirar o folêgo, fazem com que Rainha Charlotte possa agradar mais pessoas.