03
Out25
Maria do Rosário Pedreira
«[…] Mas é em relação a uma mancha antiquíssima que sobretudo pretendo precaver os passos do menino, mancha de que umas vezes me envergonho, mas de que outras vezes, confesso sem rebuço, me comprazo numa espécie de infame altanaria. É necessário que compreenda que no íntimo da nossa cepa jazem águas negras e abissais, as quais águas, ainda quando não se agitam, não cessam de despedir pútridos vapores, soprados pelas mais diabólicas das entidades, habitantes dos círculos do Inferno. Nos nossos avós, e de uma maneira genérica em toda a nossa parentela, detecta-se uma como que chaga do espírito, sempre aberta, ardendo na impaciência de contaminar quem dela se acerque. Os nossos mais longínquos antepassados viveram numa inquietude que os empurrava de terra para terra, incapazes de assentar num sítio que lhes fosse favorável, encandeados por uma estrela que jamais lhes entremostrava o rumo, e que os trazia num sobressalto que lhes devorava as entranhas. Arrastados pelo fogo de uma paixão que tudo consumia, e que nada se mostrava susceptível de saciar, sacrificavam o próprio tempo que lhes calhava, e gostaria de assegurar ao menino, o que infelizmente não é viável, que jamais teriam imolado a dignidade. Na província de Trás-os-Montes, julgo eu, donde somos oriundos, acertaram em nos pôr a alcunha de “os Brocas”. Se consultar o menino um bom dicionário, encontrará como sinónimo deste vocábulo “verruma”, e “alavanca”, e “furador”, e “patranha”. Confiro à sua imaginação que desde já se me antolha riquíssima o encargo de decidir da justeza de tal antonomásia.»
Mário Cláudio, Camilo Broca, 5ª edição no ano do bicentenário de Camilo Castelo Branco