Este livro foi a maior surpresa do ano até agora. Eu imaginava que fosse bom, mas as minhas vistas curtas nunca me permitiriam entrever que fosse TÃO bom.
Já a imaginação de Afonso Cruz é um completo universo em expansão, não existem limites para aquilo que ele é capaz de criar. Jerusalém no Alentejo? A última ceia com cerveja? O livro que uma personagem está a ler anexado ao próprio livro? Um ensaio sobre a importância das nádegas na formação de um cérebro capaz de pensar? A originalidade desde senhor é assombrosa.
Como vem sendo hábito nesta geração de escritores, voltamos ao ambiente rural, ao provincianismo, à disforia e à injustiça da vida. No meio de tanta tristeza salva-nos o humor negro e a ironia que nos fazem rir com prazer («Pegou numa corda e pendurou-se numa figueira. Foi o mais estranho fruto daquela árvore.»; «(...) e até ela comer a nossa farmácia.»).
O capítulo 37 foi uma das coisas mais bonitas (e mais tristes) que li nos últimos tempos.
Resta-me o pânico de imaginar que posso ter lido o melhor livro dele e o medo de afirmar que, depois disto, a par com Valter Hugo Mãe, Afonso Cruz é o meu jovem escritor português preferido.
Trago uma pergunta cá dentro que grita à procura de resposta, resposta essa que só Afonso Cruz me poderia dar. Preciso de saber, afinal, se Rosa leria este livro. E, se sim, o que acharia dele.
Citações:
«Mesmo os lugares mais rarefeitos, como o espaço sideral e a estupidez humana, são preenchidos por alguma coisa: luz, metais leves, preconceitos, partículas e subpartículas dos átomos, radiações, chavões e telenovelas.»
«Nós só temos um cérebro capaz de pensar na lógica de Aristóteles e na teologia de Tomás de Aquino porque temos umas nalgas extrovertidas.(...) Acaba-se com o traseiro e vai-se o pensamento mais piedoso.»
«É evidente que ninguém é verdadeiramente Deus se não experimentar passar umas tardes a jogar dominó e lerpa nos jardins e nas praças, enquanto desenvolve a bizarra capacidade de apreciar rosé com gasosa.»
«- O amor não se compra.
- Mas paga-se caro.»
13 comentários
De Inês a 23.05.2013 às 07:21
ahahaha sério Déa? Se ele responder avisa-me que eu tenho uma perguntinha para fazer também :D
Beijos :)
De Inês a 23.05.2013 às 19:40
Acho que vou fazer um vídeo sobre ele no fim de semana. Se já estás assim não te aconselho a ver :D
De RN a 23.05.2013 às 20:04
Fiquei mesmo curioso para ler este livro. A ver se na próxima viagem à nação vou às compras ;-)
O teu gosto pela leitura contagia, parabéns pelo blogue.
De Inês a 23.05.2013 às 20:17
Se pagares o café eu ofereço-te o livro!
Obrigada... pelo resto :)
(Nunca me chegaste a dizer se acabaste "O Túnel")
De Marta Pinto a 01.06.2013 às 02:34
Acho que este ainda não foi publicado por aqui...
Ano passado eu conheci a escrita do Afonso Cruz através do Os livros que devoraram meu pai, que é eu considerei muito bom.
Um dos meus grifos em Os livros que devoraram meu pai:
A vida, muitas vezes, não tem consideração nenhuma por aquilo que de que gostamos. Contudo meu pai levava livros (livros e mais livros!) para repartição financeira, e sempre que podia, lia às escondidas . Não é uma atitude aconselhável, mas era mais forte do que ele. Meu pai amava a literatura acima de tudo. [página 10]
De Inês a 02.06.2013 às 12:10
Será publicado apenas em 2014, o que é uma pena.
Que citação bonita :) O que, vindo do Afonso Cruz, não me admira :)
De efemota a 31.07.2013 às 14:16
Também ando há algum tempo para começar a ler o Afonso Cruz, mas ainda não escolhi por qual começar, se este, se a boneca de a boneca de kokoschka ou o pintor debaixo do lava-louças. Outro que também queria ler é o Ricardo Adolfo, ouvi o Valter Hugo Mãe a falar de ambos e fiquei interessado. Já agora, para mim, a par do Valter, como escritor jovem preferido está o Gonçalo M. Tavares, Já leste alguma coisa dele?
cumps
De Inês a 05.08.2013 às 20:11
Tenho em casa, por ler, dois livros do Ricardo Adolfo. Espero dedicar-me ainda este ano a, pelo menos, um deles :)
Toda a gente me recomenda Gonçalo M. Tavares, é uma falha imperdoável que pretendo colmatar brevemente :)
Obrigada pela visita.
