Tituba foi uma escrava que viveu no século XVII, cujo dono era o reverendo Samuel Parris, que vivia em Salém, Massachusetts. Ninguém sabe exatamente quais são as verdadeiras origens de Tituba, mas há algumas evidências de que ela veio de alguma comunidade na América do Sul, onde hoje fica a Venezuela. Tituba é conhecida por ser uma das primeiras pessoas acusadas de praticar bruxaria durante os julgamentos das Bruxas de Salém, que ocorreu em 1692.
Tituba realmente existiu e faz parte da nossa história, embora tenha sido esquecida. Através desse livro e usando o depoimento da própria Tituba, Maryse Condé reviveu a personagem e, além de dar voz à ela, teceu um destino digno que foi apagado pelos historiadores. Como mulher, negra e escravizada, não é difícil imaginar como a vida dela foi sofrida, principalmente levando em consideração o plano de fundo em que vivia: uma sociedade racista, machista e misógina, onde o que predominava era o extremismo religioso.
No livro, Tituba nasceu escrava, mas passou por um momento de liberdade durante sua infância e juventude, voltando a ser escrava no momento em que escolheu se casar com um escravo. Na visão de Condé, Tituba preferia permanecer presa, desde que fosse amada, a viver livre, porém sozinha; infelizmente foi o seu amor que teceu um destino tão horrível para ela. Obviamente essas são as partes ficcionais que tornaram Eu, Tituba, uma história tão especial, já que pouco se sabe sobre sua vida antes e, principalmente, depois do episódio de Salém.
A narrativa de Condé, que se dá em primeira pessoa, é maravilhosa! Eu amei como ela foi preenchendo as lacunas da vida de Tituba, que infelizmente foi silenciada pelos brancos. Além da vida da personagem, pude sentir verdadeiramente a crueldade do episódio das Bruxas de Salém: qualquer mulher que não levasse uma vida puritana poderia ser acusada, mesmo que não existissem provas — e elas eram realmente necessárias em uma sociedade patriarcal?
Apesar das condições péssimas em que viveu durante anos, Maryse Condé não hesitou em retratar Tituba como uma mulher forte, bondosa e certa dos seus desejos. É nítido o respeito e a admiração que a autora tem por essa personagem e tais sentimentos transbordam pelas páginas. Escrito por uma das mais importantes escritoras negras da atualidade, Eu, Tituba recebeu, em 2018, o prêmio New Academy Prize Award (Prêmio Nobel Alternativo da Literatura).
Título Original: Moi, Tituba, sorcière... Noire de Salem ✦ Autora: Maryse Condé
Páginas: 252 ✦ Tradução: Natalia Borges Polesso ✦ Editora: Rosa dos Tempos
Livro recebido em parceria com a editora
