Eu já sabia que, provavelmente, mesmo que o Victor não tivesse postado uma foto desse livro no seu Instagram fazendo tanta propaganda, eu iria solicitá-lo. Não só porque ele tem uma capa super fofa, mas por causa da sua importância. George e sua história têm muito o que ensinar para as pessoas e, mesmo sendo um livro voltado para o público infantil, narra um assunto muito sério e muito pouco discutido.
Já começo a resenha pedindo uma leve desculpa: se eu usar algum termo errado ou que ofenda algum de vocês, me avisem por favor. Já que eu não sou 100% conhecedora do assunto, pode acontecer. George é uma criança como qualquer outra... Tem seus dez anos de idade, vai para a escola, tem uma melhor amiga e até mesmo coleciona essas revistas direcionada para meninas. Mas tem uma coisa sobre ela que ninguém sabe e ela acha que nunca vão saber. Apesar de ter certeza que é uma menina, ela nasceu biologicamente menino e tem muito medo de que não a aceitem como ela realmente é.
Tudo anda bem na medida do possível, até que sua professora anuncia que a turma encenará a peça A Menina e o Porquinho e tudo o que George quer é fazer o papel da Charlotte, a aranha que protagoniza a peça. No fundo do seu coração ela pensa que, se conseguirem vê-la como Charlotte, talvez consigam vê-la também sendo quem ela é de verdade. Mas é claro que o seu desejo se desmorona quando a professora simplesmente diz que ela não pode nem tentar concorrer ao papel porque ela é um menino.
[...] — O que eu quero dizer é que só uma pessoa especial chora por causa de um livro. Mostra compaixão além da imaginação. — Ela deu um tapinha no ombro de George. — Nunca perca isso, George, e sei que você vai se tornar um ótimo rapaz.
A palavra rapaz a atingiu como um amontoado de pedras caindo em seu crânio. Ela cem vezes pior do que garoto [...] (p. 18)
George é simplesmente uma das melhores personagens que leio em muito tempo. Pensem em uma criança forte e determinada, gentil e amável com as pessoas, mas que tem que lidar com questões muito complicadas com apenas dez anos. Eu não consigo imaginar a confusão na cabeça dessa menina, que tem uma certeza em sua vida, mas que precisa esconder isso porque tem medo. O medo não é só da mãe e do irmão mais velho, mas de todo mundo que a cerca, porque, provavelmente, na cabecinha dela, ser menina e ter um corpo de menino não é uma coisa normal. Infelizmente a sociedade nunca deixa a gente ser que é de verdade.
Acho que eu nunca li um livro tão pequeno que tivesse uma lição tão gigante. Para vocês terem ideia, George é o primeiro livro publicado no Brasil que aborda o tema transgeneridade. Alex Gino simplesmente brilhou em escolher uma criança como personagem, simplesmente pelo fato de a maioria das pessoas acharem que não existem crianças transgênero. O tema foi abordado de uma forma tão fantástica e tão leve que é impossível não amar.
George é mais um livro que entra para a lista de "livros que devem ser colocado na lista de leitura das escolas" por um único motivo: é sim normal sermos quem somos e, independentemente de tudo, não devemos nos esconder por medo de pessoas hipócritas que se acham no direito de dizer alguma coisa. Seja quem você é.
Título Original: George
Autor: Alex Gino
Páginas: 144
Tradução: Regiane Winarski
Editora: Galera Júnior
Livro recebido em parceria com a editora
