Por José Reinaldo do Nascimento Filho
Terminei…
O meu avô tem 81 anos e está morrendo. “Como uma vela que se apaga lentamente”, disse a minha mãe. Macérrimo, fraco e branco. Definhando. Há muito ele descobriu ter câncer na garganta. Fez o que pôde para lutar contra esse mal (adquiriu até a esperança de curar-se; mas nesses últimos dias parece ter desistido de tentar). Pouco sei sobre ele; e o que sei parece ser muito pouco para tomar algum tipo de juízo ao seu respeito. “Muitas mulheres antes, durante e depois do casamento!”, “Pai ausente”, “Gente boa” e “Grande mestre de obras” foram as frases mais repetidas que chegaram aos meus ouvidos (além da clássica: “Ele está pagando pelos seus pecados”). Será mesmo? pensei. Bem, não sei. Sei somente que pouco sei sobre ele.
Não esperava por isso, mas ao ler Sartoris (1929), vi muito do pouco que sei sobre o meu avô – e descobri o motivo de não saber. Em suma, o livro narra o fim trágico e nada heróico de uma família sulista decadente que vive à sombra do patriarca, o Coronel John Sartoris, morto na Guerra Civil (1861-1865). O narrador, em terceira pessoa, apresenta-nos, sugere-nos, descortina alguns acontecimentos da vida dos protagonistas e a relação com o seu passado (nesse caso, a influência direta da herança maldita deixada pelo patriarca: ou seja, ele mesmo).
Assim como as pessoas que esbravejam doestos a respeito do meu avô, as personagens centrais do romance cumprem o papel de expor, cada um à sua maneira, os acontecimentos relacionados àquela família, restando-nos, apenas, as conseqüências das escolhas feitas por eles (e também a de acreditar ou não nos seus pontos de vistas: eu acredito no que eles falaram sobre o meu avô?). Quem cumpre com maestria o papel de nos apresentar e julgar os Sartoris e os seus descendentes – por conhecê-los muito bem -, é a irmã mais nova do coronel, Tia Jenny – dura, empertigada, altiva e generosa –, a figura central do romance (e mais bem caracterizada), aquela que dá vida ao texto.
Sobre ela, disse o narrador:
“A srta. Jenny estava sentada diante dela, ereta como uma sentinela impecável, com aquela brusquidão que a caracterizava e que fazia com que mensageiros e estranhos se atrapalhassem antes mesmo de se lançarem em suas incumbências” (p. 217)
Outro descendente, mas agora uma figura masculina, e aquela que mais se assemelha ao próprio Coronel, é o seu filho, o Bayard Velho (o que nasceu “tarde demais para uma guerra e cedo demais para a guerra seguinte”), o símbolo do fracasso. Por intermédio deste vieram ao mundo os dois netos gêmeos pilotos de avião, John e Bayard Jovem – tendo apenas o último sobrevivido a Primeira Guerra Mundial.
O livro é basicamente isso: reminiscências e o cotidiano. Outras personagens interagem e se apresentam em tramas paralelas: Narcy, a jovem que fica grávida do neto sobrevivente; o guarda-livros, Snopes, e a sua paixão doentia por Narcissa (Narcy); Simon, o negro que trabalha na propriedade com Tia Jenny (entre outros). Todavia, não obstante toda a riqueza inerente as histórias dessas personagens, Faulkner parece não valorizá-las, não as finaliza, como se elas – as histórias – representassem um mero pano de fundo à saga dos Sartoris.
E assim, como as figuras paralelas, as personagens centrais do romance também vão embora sem muita importância, provando-nos mais uma vez a inventividade do escritor sulista e a maneira magistral que ele encontrou para representar um fim trágico e decadente de uma família que um dia fora grande.
E no fim, após a leitura de 416 páginas, pouco fiquei sabendo sobre os Sartoris. Quem são eles? O que fizeram realmente? Como eles, o meu avô também está indo embora. Pouco sei sobre ele; o que sei é da boca dos outros. Pedaços de histórias soltas, opiniões e impropérios. A pessoa que poderia verdadeiramente falar sobre ele, pouco sabe, pouco teve contato: a minha Mãe não conviveu o suficiente para entendê-lo, para saber quem realmente é o pai dela. E assim como a Tia Jenny disse sobre os Sartoris, Mainha parece tê-lo recebido de herança.
