Lílian Miranda

Os Alabês, Carybé

“O clamor de justiça está no ar! O clamor de justiça está no ar! Ouve o clamor ê ê ê! Deste povo negro ê ê á!”. Logo após o toque dos atabaques, assim inicia a missa de Santo Antônio de Categeró, que é celebrada toda terça-feira na Igreja do Rosário dos Pretos em Salvador, e é uma celebração católica que conjuga elementos da cultura afro-brasileira. Padre Lázaro, que é responsável pelo ritual, acrescenta que o cristianismo também tem sua matriz africana que os europeus tentaram apagar.

É preciso chegar cedo para garantir um lugar para sentar, pois a cerimônia tem sempre lotação máxima. A missa dos atabaques, como é conhecida, é uma prática que passou a ser realizada a partir das decisões emitidas pelo Concílio Vaticano II e visa a valorizar os costumes e a cultura local, promovendo um processo de evangelização que esteja dentro da realidade das pessoas daquela comunidade. Meu bisavô Januário foi prior da igreja, ou seja, participava diretamente da organização da rotina da instituição, por alguns anos no final da vida, e, ao mesmo tempo, desde os 8 anos era consagrado ogã, um posto de elevada hierarquia no candomblé, tocando atabaque em alguns terreiros.

Em 2019, quando precisei fazer uma resenha autoetnográfica para uma disciplina da graduação, visitei a igreja e entrevistei Seu Nicanor, tesoureiro do Rosário. Durante três horas de conversa gravada, ele me contou parte da história da igreja, dos negros malês, da escrava Anastácia, falou também sobre as festas anuais e algumas fofocas da irmandade. Mas o que mais me chamou a atenção foi a informação de que muitos assentamentos de candomblé do passado permanecem sob os terrenos das igrejas católicas de Salvador e além disso me contou histórias de meu próprio bisavô, que mantinha um grande envolvimento com a irmandade dos homens pretos. No tour pela igreja conheci a sacristia, as salinhas e o cemitério dos escravos, um espaço no fundo da instituição, com chão de terra e algumas árvores, que fica ao ar livre. Ali se encontram os restos mortais de membros da irmandade, inclusive os do meu bisavô. Naquela época, eu sequer tinha lido Um defeito de cor.

Tenho pensado, ao longo de meu mestrado, que gostaria de fazer aproximações entre minha pesquisa sobre o livro e a vida do meu bisavô: Seu Januário. Esse desejo começou quando percebi que a obra de Gonçalves menciona algumas instituições das quais meu bisavô fez parte, como a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, o terreiro da Casa Branca e a Irmandade de Nossa Senhora da Soledade Amparo dos Desvalidos (mais tarde chamada  Sociedade Protetora dos Desvalidos):

Agradeci quando o Fatumbi se ofereceu para cuidar do funeral porque, por mais que eu gostasse do João Badu, a lembrança da morte do Banjokô ainda estava muito viva, assim como a amizade que havia entre os dois. Despedi-me do corpo quando saiu de casa, levado por pessoas da Irmandade de Nossa Senhora da Soledade Amparo dos Desvalidos. A confraria tinha sido fundada no ano anterior na Capela dos Quinze Mistérios, e abrigava tanto cristãos como muçurumins, entre eles alguns amigos do Fatumbi. (Gonçalves, p. 301)

Os locais nos quais Gonçalves ambienta as aventuras da vida de Kehinde também foram lugares percorridos por Seu Januário. Até hoje soa como uma espécie de fábula o fato de que me reencontrei com meu bisavô por meio do romance. Depois disso, fiquei ainda mais curiosa para conhecer sobre sua vida. Minha avó, filha do Sr. Januário, está viva, mas nunca gostou muito de conversar.

Assim, tem me feito pensar muito o fato de que eu tenha de procurar outros caminhos e arquivos para dar sentido a essa aproximação. O trabalho publicado na revista Afro-Ásia do Programa de Pós-graduação em História da Universidade da Bahia intitulado “Entre as Linhas 14 e 15: histórias, trajetórias e contextos de mestres alabês soteropolitanos” de Rafael Souza Palmeira, tematiza os mestres dos atabaques de terreiros de candomblé em Salvador, traz entrevistas e explora memórias individuais e coletivas que mencionam Seu Januário e outros ogãs, comentando a participação dele e de Seu Paizinho (irmão dele, meu tio-bisavô) nas gravações de um disco de cânticos para os orixás proposto por Pierre Verger em 1958. Eu sabia que ele era ogã nascido no terreiro da Casa Branca, mas essa nova história me colocou diante de novos arquivos e novas descobertas.

Após a leitura do artigo, enviei um e-mail agradecendo a Rafael Palmeira pelo trabalho. No dia seguinte, fui atrás do livro que consta nas referências do artigo, Casa de Oxumarê, Cânticos que encantaram Pierre Verger (2020) de Angela Lühning e Silvanilton Encarnação da Mata. A obra explora fontes primárias, apresenta uma boa pesquisa bibliográfica, reproduz entrevistas, fotos e cartas que descortinam o trabalho desenvolvido por Verger, fala sobre a casa de Oxumarê e sobre os mestres alabês e seus familiares.

A leitura me levou a enveredar por parte da história da cidade de Salvador, do meu bisavô, do meu tataravô Seu Jacinto e de tias conhecidas e desconhecidas e também descortinou para mim uma faceta inusitada e encantadora de meu bisavô: ele também era baterista e fez parte de uma jazz band entre 1940 e 1950.

Mas por que conto tudo isso?

Porque os documentos guardados em arquivos, a pesquisa historiográfica sobre o passado que é parte de minha pesquisa ao desejar reconhecer melhor os territórios habitados por Kehinde e apresentados na narrativa de Gonçalves, me levam a mim, à minha família, a um bisavô que mal conheci. Nos trânsitos de Kehinde, reconheço os trânsitos de Seu Januário. Ao tatear esse arquivo me encontro com a tentativa de reconstrução de uma história pessoal e familiar esquecida e que faz parte de uma memória coletiva.

Conheci uma Salvador antiga e posso dizer algo mais sobre Seu Januário: ele foi um mestre alabê, foi aquele que zelou pelos instrumentos musicais, assumindo-se ogâ e prior, no candomblé e no catolicismo, investiu em mudanças sociais, era galante, foi mestre de obras, morreu velho. Guardo dele uma foto comigo no colo e um disco gravado por Pierre Verger com sua música.

Seu Januário, 2005, um ano antes de morrer. Print/foto de um vídeo de Marcos Resende.