Quando julgamos e avaliamos crimes, de forma geral, nós ― quando eu digo "nós", me refiro à sociedade como um todo ― sempre condenamos o agressor, afinal, foi uma escolha dele. Porém, caso vocês nunca tenham reparado, essa premissa não é válida quando um homem estupra uma mulher. Obviamente é um crime, também foi escolha do agressor, mas todo mundo sempre arranja um jeito de culpabilizar a vítima: "ah, mas andando sozinha a essa hora da noite, queria o quê?", "usando essa roupa curta também, tava pedindo", "se não tivesse bêbada, não teria acontecido".
Esse tipo de argumento está associado à cultura do estupro que, segundo o movimento HeForShe Brasil, "é um termo
usado para abordar as maneiras em que a sociedade culpa as vítimas de
assédio sexual e normaliza o comportamento sexual violento dos homens. Ou
seja: quando, em uma sociedade, a violência sexual é normalizada por
meio da culpabilização da vítima, isso significa que existe uma cultura
do estupro." Tudo isso é consequência da neutralização e normalização de comportamentos e atos machistas, sexistas e misóginos, que atiçam todo tipo de violência contra a mulher.
Qualquer argumento sobre comportamento ou conduta da vítima tira o foco de que há um agressor, que agiu por escolha e contra a vontade da mulher em uma situação em que ela estava vulnerável. Ora, nenhum argumento ― repito, nenhum ―, deveria justificar, muito menos normalizar, um crime tão bárbaro quanto o estupro. Não são as mulheres que devem "se dar ao respeito", são os homens que TÊM que parar de estuprar.
No Brasil, segundo o 12º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, só em 2017 foram registrados cerca 60 mil casos de estupro, levando em consideração que apenas 8% dos casos são denunciados aqui no nosso país. Está aí mais uma consequência da cultura do estupro, já que a vítima sente medo e tem vergonha de denunciar. Eis uma triste realidade: esse número altíssimo de casos registrados e também as subnotificações só afirmam que o Brasil não apenas tolera quanto incentiva a cultura do estupro.
É por causa de todas as informações anteriores que julgo Do Que Estamos Falando Quando Falamos de Estupro, de Sohaila Abdulali, um livro extremamente necessário. A autora, que sobreviveu a um estupro coletivo aos 17 anos de idade em Bombaim, fala de forma muito simples sobre a necessidade de combater a violência sexual e a cultura do estupro. A obra é cheia de exemplos que confirmam tudo o que ela afirma, exemplos tão absurdos que têm a capacidade de deixar o leitor, na falta de uma expressão melhor, deveras indignado.
Por exemplo, vocês sabiam que na Índia, Gana, Jordânia e diversos outros lugares, a partir do momento em que uma mulher se casa com um homem, ela automaticamente transfere os direitos sobre o seu corpo ao marido. A lei afirma que o casamento significa acesso pleno, a mulher não precisa dar consentimento. Ou seja, estupro marital, que é uma realidade em qualquer país, não é minimamente considerado. Se seguir a vida já é difícil após um estupro, imaginem vocês continuar morando no mesmo teto que seu abusador.
Usar saia curta, usar maquiagem, saber dirigir, deixar seu hijab (conjunto de vestimentas preconizado pela doutrina islâmica) em casa. Ter nascido mulher. Somos culpadas por tudo isso e muito mais; então, é claro que acabamos internalizando esse sentimento. (p. 74)
Sohaila Abdulali está no seu lugar de fala não só pelo sofrimento que foi submetida, mas também por ser mulher. A abordagem da autora, ainda que simples e natural ― o que pode, inclusive, causar certo estranhamento ―, é um alerta sobre a forma que enxergamos o estupro. Abdulali conversa sobre tudo, desde como a vítima é encarada na sociedade até como os agressores são tratados nos tribunais (se é que eles chegam até lá, não é mesmo?).
Do Que Estamos Falando Quando Falamos de Estupro é o tipo de livro que mexe com a gente, que causa revolta, que abre os nossos olhos. Me fez entender que não devemos aceitar o silêncio que ronda o estupro. Precisamos ter voz, precisamos escutar. Esse livro é só primeiro passo para entender essa tal cultura a que estamos inserido, porque nós precisamos transformá-la.
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Título Original: What We Talk About When We Talk About Rape
Autora: Sohaila Abdulali
Páginas: 256
Tradução: Luis Reyes Gil
Editora: Vestígio
Livro recebido em parceria com a editora
Depois de sobreviver a um estupro coletivo aos 17 anos em Bombaim, Sohaila Abdulali ficou indignada com o silêncio ensurdecedor que se seguiu e escreveu uma coluna inflamada sobre a percepção acerca do estupro – e de suas vítimas – para uma revista feminina. Trinta anos depois, sem aviso, seu artigo voltou à tona e viralizou, na esteira do estupro coletivo ocorrido em Nova Deli, em 2012 (que resultou na morte da vítima), incentivando Abdulali a escrever outro artigo para o New York Times – que circulou amplamente – sobre o processo de cura de um abuso sexual. Agora, a autora apresenta Do que estamos falando quando falamos de estupro: um olhar profundo, generoso e inflexível sobre o estupro e a cultura do estupro.Partindo de sua própria experiência, bem como de seu trabalho atendendo centenas de vítimas nos Estados Unidos, além de três décadas de trabalho intelectual feminista, Abdulali encara algumas das questões mais espinhosas sobre o tema. Em entrevistas com sobreviventes do mundo todo, ouvimos relatos emocionantes de força encontrada na adversidade, no humor e na sabedoria que contam, em conjunto, uma história maior sobre o significado do estupro e como a cura pode advir.
Abdulali também aponta questões sobre as quais não conversamos: Um estupro é sempre um evento que define uma vida inteira? Um estupro é pior do que outro? Um mundo sem estupros é possível?
Do que estamos falando quando falamos de estupro é um livro para a época de movimentos como #MeToo, #TimesUp e #MeuPrimeiroAssédio, que vai permanecer com seus leitores – tanto homens quanto mulheres – por muito, muito tempo.

