Nesta nossa época em que se enfatiza a explicação do óbvio, não só como ofensa para o leitor, como dizia o poeta italiano Enrico Testa em sua visita a São Paulo em 2016, mas como forma de manter o leitor nos limites de sua ignorância (de seu mundo, como dizia Wittgenstein) — e não só no âmbito da cultura: acabam de fechar a maior biblioteca da NASA! —, nesta nossa época, dizíamos, a leitura de um livro como Viagem do recado música e literatura, de José Miguel Wisnik, publicado pela Companhia das Letras, é um verdadeiro presente. Não apenas por pressupor, finalmente, que o leitor tem capacidade de acompanhá-lo nos “enunciados viajantes” dos ensaios que compõem o volume, mas por espicaçar nele aquela graça que nasce da interação entre texto e intérprete, que “agrega nexo a cada volta que passa”, e que é filtrada da ironia marota de sabor bem brasileiro que é “não saber sabendo”.

Essas expressões comparecem no sexto ensaio do livro de Wisnik, que é o que lhe dá o nome. O autor analisa “O Recado do Morro”, conto longo de Guimarães Rosa publicado inicialmente em 1956, como um dos textos de Corpo de Baile (Ed. Global).

José Miguel Wisnik. Foto: Divulgação Companhia das Letras.

O conto de Rosa é visto por Wisnik a partir de vários prismas privilegiados, que vão suscitar na memória do leitor uma série de associações, filológicas (ex.: de onde vem a palavra “recado” e seus similares); cosmológicas (ex.: os níveis astrológicos contemplados por Rosa nos nomes atribuídos a lugares e personagens); simbólicas e bibliográficas, em todo o resto, dependendo do andamento da “palavra dinâmica”, achado-guia esse que Wisnik relaciona a Bakhtin, quando o mestre russo mostra como a posição e a inflexão das palavras a serem pronunciadas são fundamentais para o sentido. 

Os “ecos do recado” — outro achado de Wisnik — implicam também o eco de outras leituras importantes, tanto para os autores (Rosa e ele mesmo) quanto para os leitores. É escuso mencionar aqui as de Rosa, mas as de Wisnik, tanto no texto quanto nas notas, vão de Drummond a Kopenawa, passando por Eduardo Viveiros de Castro, Flora Sussekind, Clara Rowland, Vinicius de Moraes, Bento Prado Júnior, Edoardo Bizzarri, Roniere Menezes, Heloísa Vilhena de Araújo, Michel Foucault, Carlo Rovelli, Walter Benjamin, Maurice Capovilla e Claude Lévi-Strauss, entre outros, até chegar a Farid ud-Din Attar, autor de A Linguagem dos pássaros, que Jorge Luis Borges prezava muito.

Este clássico sufi do século 14 narra como trinta pássaros viajam em busca de Simurg, o mirífico rei dos pássaros, e no fim descobrem que os próprios pássaros são o pássaro que procuram e que o Simurg, na verdade, é cada um deles. Do mesmo modo, em o “O Recado do Morro”, o recado encontra seu destinatário no próprio guia, Pedro Orósio, que conduz a viagem do conto de Rosa, fazendo com que “o alvo final esteja contido nele mesmo, desde seu início”. 

Esta coincidência suscitou na minha própria memória o eco de um outro livro, Noturno Indiano, que me havia impressionado bastante quando o li em 1984. De autoria de Antonio Tabucchi, escritor ítalo-português, foi traduzido e publicado no Brasil pela Cosac Naify em 2012. A narrativa acompanha a peregrinação do protagonista por doze cidades diferentes da Índia à procura de um amigo, Xavier, de quem ele havia perdido o rastro. Após passar por esses tantos lugares, de Goa a Bombay, finalmente chega ao fim da viagem e descobre que ele estava em busca de si próprio, e que o amigo era ele mesmo. Fiquei extremamente surpresa não apenas por esse motivo — como observa Wisnik — corresponder à visão de Plotino de que “a alma só se salva num grau superior de unificação”, mas por encontrá-lo em Guimarães Rosa, prenunciado nesse clássico do misticismo islâmico do século 14. 

Na Trilha de Lagoa Santa

A segunda surpresa foi a descoberta de que o cientista nórdico, pivô e financiador da viagem de Cordisburgo ao Gerais, que atravessa o conto de Guimarães Rosa, é o naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund, descobridor, em Minas Gerais, das ossadas da gruta de Maquiné, da Lagoa Santa e da gruta do Sumidouro, em 1842, onde encontrou o primeiro crânio humano pré-histórico brasileiro, datando de mais de 20 mil anos atrás. Por suas descobertas e por sua vida dedicada ao Brasil, ele é considerado o pai da paleontologia e da arqueologia brasileiras.

Lund examinando pinturas rupestres. Ilustração de Peter Andreas Brandt.

Essa descoberta reavivou-me a lembrança da biografia desse cientista narrada no livro Na Trilha de Lagoa Santa (1999), de autoria de Henrik Stangerup, um dos maiores escritores dinamarqueses da época. Essa biografia revelou certos detalhes da vida do cientista dinamarquês que Guimarães Rosa já conhecia em 1956, quando publicou “O Recado do Morro”, mais de trinta anos antes de a biografia de Lund ser escrita. Vou dar um exemplo. No final da oitava parte de seu livro, Stangerup escreve o seguinte:

 “De repente, ouve-se no jardim: Troglodyt! Troglodyt!

Brandt, [que era o pintor que acompanhava Lund, desenhando tanto a flora como a fauna que ele dessecava, quanto as ossadas que ele catalogava], Brandt ergue-se de um salto e corre para fora. Pouco depois está de volta, informando que quatro meninos com espantalhos assemelhados a esqueletos pisaram nos murundus de batatas doce. Não conseguiu alcançá-los, mas o escravo foi atrás deles. – Receberão o castigo devido.

A explicação do uso desse curioso termo, Troglodyt, é dada numa nota de Per Johns, o tradutor de Na Trilha de Lagoa Santa, nos seguintes termos:

Troglodyt: Troglodita em dinamarquês. Feliz sugestão encontrada na novela de Guimarães Rosa ‘O Recado do Morro’. O personagem seu Olquiste, ou seu Alquist, ou seja, o cientista Peter Wilhelm Lund, tal qual é visto por um caboclo dos Gerais, que, ao encontrar “um velhote grimo, esquisito, que morava sozinho dentro de uma lapa” [trata-se de Gorgulho, cujo nome de verdade é Malaquias] exclama: Troglodyt! Troglodyt! É como se o doutor Lund se visse num espelho. Ele próprio passaria a ser um troglodita aos olhos dos habitantes de Lagoa Santa.

A passagem correspondente no conto de Rosa é a que segue:

“— O! Ack! glogueou seu Olquiste, igual um pato. Queria que o Gorgulho junto viesse. Troglodyt? Troglodyt? — inquiria, e, abrindo a grande boca, rechupava um ooh!… Quase se despencando, desapeou. Frei Sinfrão e seo Jujuca desmontaram também.” [Esses dois personagens que desmontam formavam, junto com seu Olquiste, o trio dos “três patrões” em viagem, mais o guiador, Pedro Osório, e também, “tangendo os burros cargueiros, um Ivo, Ivo de Tal, Ivo da Tia Merência”. Seu Olquiste queria que Malaquias, vulgo Gorgulho e alcunhado de “Troglodyt”, também fizesse parte da comitiva.]

Das duas, uma: ou Stangerup havia lido “O Recado do Morro” antes de escrever sua biografia — não diretamente em português, já que, apesar das muitas viagens ao Brasil, seu domínio do idioma talvez ainda não fosse suficiente —, recorrendo possivelmente à ajuda do tradutor Per Johns, também escritor de ascendência dinamarquesa, que lhe teria chamado a atenção para esse detalhe do troglodyt, mais tarde incorporado ao seu livro; ou então tanto ele quanto Rosa teriam tido acesso, para suas respectivas obras, a informações detalhadas sobre a vida de Peter Wilhelm Lund no Brasil. No caso de Stangerup, graças à longa e minuciosa correspondência que Lund manteve com amigos e familiares na Dinamarca — até mesmo com o famoso filósofo Søren Kierkegaard, de quem era primo. Já Rosa, graças a informações possivelmente obtidas ao longo de sua carreira diplomática na Europa, que, conforme se sabe, durou mais de 30 anos.

Muito ainda haveria a ser dito sobre esses três livros, cada um deles uma obra prima no seu gênero: conto, ensaio e biografia. O que importa saber é que eles são complementares entre si e que contribuem admiravelmente para o enriquecimento sensível e intelectual do leitor.


Aurora Fornoni Bernardini é escritora, tradutora e professora titular da USP no Departamento de Línguas Orientais e na pós-graduação no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada. Graduou-se em inglês (1959-1963) e em russo (1962-1966) pela USP, onde ainda concluiu seu mestrado (1970, sob orientação de Boris Schnaiderman) e doutorado (1973, sob orientação de Alfredo Bosi) sobre o futurismo russo e italiano, e sua livre-docência (1978) sobre Marina Tsvetáieva. Dedica-se também à pintura, tendo realizado exposições individuais e coletivas.

O post ‘Viagem do recado’, de José Miguel Wisnik: entre o ‘Recado do Morro’ e a Trilha de Lagoa Santa apareceu primeiro em Estado da Arte.