As Paixões de Julia | Somerset Maugham
Julia Lambert é uma das mais bem sucedidas atrizes do seu tempo. O domínio das emoções, a entoação que imprime à voz e a forma como se projeta nos espaços, sem nunca perder a noção do tempo teatral, fazem dela uma mulher arrebatadora, dentro e fora dos palcos.
Alguém que faz da vida uma permanente manifestação de talento criativo e a cuja magia, que se prolonga para além da queda do pano, todos se submetem. Julia é uma atriz a tempo inteiro. Na vida, interpreta o papel de esposa fiel e apaixonada. Veste na perfeição a pele de uma pessoa sofisticada, atenta aos eventos culturais frequentados por mulheres elegantes e ociosas, sem se deixar deslumbrar pelo seu esplendor.
Ao ser manipuladora, faz dos outros o seu público permanente. Não existe um refúgio, uma zona de conforto. Em cada momento, deve corresponder às expetativas criadas e nunca deixar cair o personagem que interpreta. Júlia fica refém do palco, o que escolheu para interpretar a sua vida. Isto, até ao dia em que o amor toma conta de si. Ele é o contaminador de todas as atuações e senhor de sentimentos que não se conseguem dissimular. O amor é um personagem caprichoso que nos habita o espírito de manhã à noite e faz do mundo um palco repleto de equívocos. Sendo o maior desses equívocos a tentação de reviver, em cena, as emoções reais da vida.
Curioso, encontrar aqui, na boca de um diretor de cena, a frase: No teatro o que parece é.
Na escrita de Somerset Maugham os personagens definem-se com o correr da narrativa e, logo na primeira página, a profissão de Julia é revelada ao realçar a capacidade de colar o gesto à palavra, tão típico dos atores. Declina o uso das hipérboles para descrever as emoções que, como os personagens, quando são autênticas, definem-se a si próprias. Neste romance, assiste-se à construção de uma diva a partir das contradições de uma pessoa normal que apenas aspira à grandeza.
As pessoas não querem razões para fazer o que gostariam de fazer… Querem desculpas.