Há alguns dias que tenho pensado com obsessão neste trecho de “O destino de um homem”, de Somerset Maugham.
Não existe alegria maior do que possuir um espírito livre, mesmo que a angústia até chegar a essa constatação – e o peso de carregar muitos mundos e outras dores nas costas – quase não valha a pena. Ainda assim, sou livre enquanto escrever; dentro das palavras não existem limites, somente aqueles que eu me imponho.
“Não prestei muita atenção, e como ela parecia se prolongar, aproveitei para refletir sobre a vida do escritor. É uma vida cheia de contratempos. Para começar, ele deve sofrer a pobreza e a indiferença do mundo; depois, tendo conquistado uma parcela de sucesso, tem de se submeter sem protesto aos seus riscos. Depende de um público inconstante. Está à mercê de jornalistas que querem entrevistá-lo; de fotógrafos que querem tirar-lhe o retrato; de diretores de revistas que o atormentam pedindo matéria; de cobradores de impostos que atormentam por causa do imposto sobre a renda; de pessoas gradas que o convidam para almoçar; de secretários de instituições que o convidam para fazer conferências; de mulheres que o querem para marido e de mulheres que querem divorciar-se dele; de jovens que lhe pedem autógrafo; de atores que desejam papéis e estranhos que querem um empréstimo; de senhoras sentimentais que lhe solicitam a opinião sobre assuntos matrimoniais; de rapazes graves que querem opinião sobre suas composições; de agentes, editores, empresários, chatos, admiradores, críticos e da própria consciência. Mas existe uma compensação. Sempre que tiver alguma coisa no espírito, seja uma reflexão torturante, a dor pela morte de um amigo, um amor não correspondido, o orgulho ferido, o ressentimento pela falsidade de alguém que lhe devia ser grato, enfim, qualquer emoção ou qualquer ideia obcecante, basta-lhe reduzir a preto e branco, usando-a como assunto de uma história ou enfeite de um ensaio, para esquecê-la de todo. Um escritor é o único homem livre.”
