Se pequeno, pode-se até fazer vistas grossas, mas se grande, precisa ser castigado, punido, de preferência, em praça pública, para que sirva de exemplo e não se repita.

Maria Paula Curto*

Se olharmos no dicionário, assimetria aparece como discordância, não conformidade, falta de igualdade. A princípio, isso parece soar como algo ruim, disforme, feio. Algo que precisa ser trabalhado, burilado, lapidado, para que fique igual, conforme, perfeitamente simétrico e devidamente alinhado. Como se tudo que saísse do padrão precisasse de conserto, de acerto ou, no mínimo, de uma pequena correção. Um ajuste de rota. Qualquer desvio deve ser evitado. Se pequeno, pode-se até fazer vistas grossas, mas se grande, precisa ser castigado, punido, de preferência, em praça pública, para que sirva de exemplo e não se repita.

Mas a pergunta que fica é: que padrão é esse? Nós devemos estar alinhados e em conformidade com o quê mesmo? Quem determinou esse padrão? Quando? Como ele foi estabelecido? Com base em que modelo? Modelo definido por quem? Pelos perfeitamente simétricos, padronizados, ajustados? Os famosos “Normais”? Quem são eles para determinar as regras do jogo?

Se a gente seguisse na base da conformidade, da padronização e perfeita simetria, talvez ainda viveríamos certos de que a Terra era plana (apesar de que alguns ainda estão com esse modelo mental…). Imagem: Abaporu, Tarsila do Amaral.

E se eu quiser seguir outro modelo? Serei punida?

Gostaria apenas de lembrar que várias das grandes descobertas humanas – e talvez a sua grande maioria – ocorreram por vozes dissonantes. Que não estavam conformes. Que não eram alinhadas ao modelo vigente. Que não prezavam pela perfeita simetria, mas que tiveram a coragem ou a ousadia (loucura, quem sabe?) de peitar o status quo, em prol daquilo que acreditavam. Ou você acha que Galileu, ao falar que a Terra não era o centro do universo não foi considerado anormal? Perseguido pelos “conformados”? Ou que Santos Dummont ao mostrar ao mundo que era possível voar foi aplaudido logo de cara? Que o inventor da xerox ou da máquina fotográfica foi imediatamente aceito? Eles sofreram muito até provar que estavam certos e que o modelo, a partir daquele momento, e daquela ousadia, passaria a ser outro. Se a gente seguisse na base da conformidade, da padronização e perfeita simetria, talvez ainda viveríamos certos de que a Terra era plana (apesar de que alguns ainda estão com esse modelo mental…), o centro do universo e continuaríamos a viajar em carroças, puxadas por boi ou cavalos…

Por outro lado, quando uma parte da humanidade resolveu simplesmente seguir em conformidade com um modelo de sociedade perfeita do “mestre Führer”, sem questionar, sem refletir – sociedade perfeita para quem, cara pálida? – o mundo viveu momentos de pura destruição e horror. Com isso, descobrimos na pele, em sangue e ossos, que seguir a maioria dominante nem sempre tem um final feliz, belo e simetricamente harmonioso.

O grande X da questão é saber quando devemos ou não seguir as regras e quando temos por obrigação ética e moral, quebrá-las. Quando devemos aceitar o diferente como parte integrante do ecossistema, real e necessário ao nosso funcionamento enquanto sociedade e quando devemos expurgá-lo para que ele não apodreça nossos corpos e mentes com ideais tóxicos de uma humanidade perfeitamente simétrica, branca, cis, hetero e economicamente dominante. É saber quando borrar limites, ultrapassar fronteiras, explodir bunkers de pensamentos retrógrados, obsoletos e preconceituosos. É aprender a ouvir o outro e, em vez de tentar eliminar as dissonâncias e assimetrias como se fossem deficiências, incorporar essas diferenças como novas possibilidades de ser. Não precisamos ser iguais. Não devemos ser exatamente síncronos e simétricos. Assimetrias são permitidas. Elas são benéficas. Elas podem até, num primeiro momento, nos assustar. Como tudo que é novo e desconhecido. Mas depois passa. E a gente cresce. Assim é a vida. Basta ter coragem. E seguir em frente. Mesmo que de forma torta e assimétrica…

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*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP