Perna cabeluda + não usa brinco + estudou engenharia = certeza de que é sapatão, só não saiu do armário. Eu nem tentava explicar que, apesar de todos esses fortes indicadores, pasmem, eu gostava mesmo de homem.
Maria Paula Curto *
O ser humano é um bicho muito engraçado. Vive falando de liberdade, diversidade e empatia, mas basta alguém sair um pouquinho do padrão esperado, que lá vem uma enxurrada de comentários maldosos e um monte de fórmulas mágicas para resolução daquele problema. Quem disse que é um problema não ser totalmente igual à maioria? Ah, pois é. Foi a própria maioria quem disse. E se ela estiver equivocada? Houve um tempo em que a maioria acreditava que a Terra era o centro do universo. Inclusive, pensar diferente disso custou a vida de alguns.
Como é difícil viver tendo que corresponder a padrões que nos são estabelecidos, não? Expectativas são criadas antes mesmo do nosso nascimento. A gente já nasce tendo que correr atrás de algum prejuízo. Mal a gente aprende falar e lá vem a famosa pergunta: “O que você vai ser quando crescer?”. Ora, ninguém precisa crescer para ser. Todo mundo já é. Alguém. Talvez não aquele ser humano “perfeito e produtivo” que o mundo espera, mas certamente alguém. Impressionante como associamos o tornar-se alguém com a questão da profissão. E sucesso com o nível hierárquico alcançado e o valor recebido no fim do mês. Pessoas são medidas por performance. Como máquinas. A gente não deveria ter nascido para “desempenhar”, mas para existir. E ser feliz.

Esses padrões, essas exigências e expectativas nos chegam por todos os lados. Não somente na questão profissional e de “imagem”, mas até nas coisas mais bobas do cotidiano. Duvida? Pois bem. Vou te dar um exemplo. Eu sou mulher e não tenho orelha furada. Isso, aparentemente, é algo inconcebível. Diversas vezes recebi brincos de presente. De amigas. De colegas de trabalho. As pessoas não se dão ao trabalho de sequer olhar para você. Você é uma menina? Então tem orelha furada. Sempre que eu respondia, sem graça: obrigada, mas não posso usar, pois minha orelha não é furada, alguém me perguntava logo na sequência: mas por que você não fura? (Por que é sempre mais fácil tentar mudar o outro?) E eu contava uma historinha, verdadeira, de que meu avô materno não gostava disso – achava algo meio bárbaro para se fazer com um bebê – e não permitiu que furassem a orelha da minha mãe, nem da minha tia, e minha mãe, por sua vez, decidiu não furar a minha. Ela preferiu deixar essa decisão para mim. E eu, simplesmente, não quis. Minha prima furou a dela, na adolescência. Eu cheguei aos 55 anos com meu lóbulo intacto. Isso me fez menos mulher? Menos feminina? Obviamente que não. Eu até uso brincos de pressão quando tenho vontade. Mas até hoje eu tenho que explicar essa decisão. Como se o furo da orelha fosse alguma espécie de cromossomo feminino. E uma forma de identidade. Pode até ser que seja. Para a maioria. Mas não para mim.
Querem outro exemplo? Eu uso relógio na mão direita. E sou destra! Uau, quanta heresia, não? Pois é. Quantas vezes me encheram o saco falando que o tal do relógio tinha que ficar na mão esquerda. Quando eu cansava de argumentar que não havia uma lei que determinasse que o bendito relógio tinha que ser colocado no pulso esquerdo, eu apelava para o fato de que, como eu dirigia, ter o relógio na direita dificultava a ação de assaltantes, principalmente, quando eu dirigia pelas ruas engarrafadas do RJ. E no bairro em que morei por 30 anos: Botafogo. Que, segundo Miguel Falabella, não é bairro, mas passagem. Porque todo mundo tem que passar por Botafogo para ir do centro a qualquer bairro da zona sul do Rio. E ainda por cima, tem talvez a maior quantidade de colégios por metro quadrado que eu já vi. Então, imagine o que não é cruzar a São Clemente (uma das principais ruas do “bairro-passagem”) às 17:30. Talvez uma tartaruga manca caminhe mais rápido…

Se ainda não estão satisfeitos, vamos a outro item: Depilação. Até os 40 anos (sim, eu resisti bravamente até os 40!), eu não depilava as pernas!!! E olha que não me faltavam pelos. Como boa filha de portuguesa, minha perna tinha mais cabelo que a do centroavante do Vasco (como vocês não fazem ideia de quem seja, fica só como metáfora, ok?). E o que eu fazia? Eu aloirava os pelos, com água oxigenada e amônia. Era um cheiro desgraçado pela casa e eu só desisti desse método, porque aos 40, eu tinha dois cachorros, morava sozinha e não tinha como me besuntar com aquele creme branco fedendo a xixi sem destruir o fígado dos pobres poodles. Portanto, eu tive que me reinventar no quesito eliminação de pelos indesejáveis e não teve jeito, tive que apelar para os métodos mais tradicionais. Primeiro, usei a tal da cera quente. Sinceramente, quem inventou essa coisa devia ser excomungado da vida terrena para todo o sempre. Precisava ser tão sofrido? Afff. No meu caso, ainda tinha um agravante: após o maldito sofrimento, a minha pele ficava toda embolotada, cheia de pelo encravado, parecendo uns minivulcões, uma coisa horrorosa. Daí, não teve jeito, acabei me rendendo à lâmina de barbear. Muito mais rápido, mais barato e indolor. O único ponto é que após a bagatela de uns dois dias, no máximo, minha perna mais parecia uma lixa de carpinteiro. Já quase usei a coitada para deixar uma prateleira da estante mais lisinha…
As perguntas e tentativas de “encaixe” não acabam nunca. Se você tem 25 e aparece na festa da família sozinha, lá vem algum primo do cunhado do tio da vizinha com: “cadê o namorado?”. Se tem 30 e ainda está solteira, lá vem a fatídica: “Você não vai se casar?” Fora os olhares de quem “já entendeu tudo”: perna cabeluda + não usa brinco + estudou engenharia = certeza de que é sapatão, só não saiu do armário. Eu nem tentava explicar que, apesar de todos esses fortes indicadores, pasmem, eu gostava mesmo de homem. Deixei para lá. Não valia a pena. Ah, mas se você se casou, nem precisa passar um ano para o povo já começar a encher novamente: “Quando vem o herdeiro?” Ora, são eles que vão ganhar vinte e cinco quilos, trocar as fraldas, passar as noites em claro, gastar uma baba com educação e morrer de preocupação pelo resto da vida? Claro que não. Mas nada disso impede os questionamentos. Porém, não pense que ter um filho vai resolver. Não vai não. Eles não desistem assim tão facilmente. Eles insistem: “Mas vai ficar só com um? Quem tem um não tem nenhum”. Haja paciência, viu? Fico imaginando o quanto minha mãe não sofreu quando decidiu que euzinha aqui já seria mais do que suficiente…
Seria tão mais simples se a gente não precisasse se encaixar em padrões predeterminados. Se a gente vivesse uma vida sem moldes, fórmulas ou rótulos. Se a gente pudesse gostar das pessoas do jeito que elas são: tortas, desencaixadas, com as pernas cabeludas ou empelotadas, com relógio no pulso direito, esquerdo ou até pendurado no pescoço. Seria tão mais fácil se a gente percebesse que é no encontro com o outro, com aquilo que nos é diverso, que se dá a possibilidade de crescimento. Sem quebrar a casca, sem romper o ventre, sem rasgar a carne, a gente nem teria visto o mundo. Bora sair da caixa?

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.