ilustração Ligia Zylbersztejn

Cenas exclusivas da memória, se pudesse, gravaria um vídeo e mostraria ao mundo inteiro, aos berros de: olha essa mulher!

Maria Paula Curto

Nunca fui muito feminina. Passo longe de ser “moça fina”. Extrovertida, na época da faculdade de engenharia, no campus da UFRJ no Fundão – vamos combinar que fazer engenharia na década de 1980 já não era das coisas mais femininas do mundo – eu mexia com todo mundo. Beliscava a bunda de um, apertava o peitoral de outro e até mesmo enfiava os dois indicadores nos peitinhos pequeninos e durinhos de outra. Sim, nessa época, as mulheres tinham seios pequenos e tudo bem.

Aliás, muitas até faziam a famosa cirurgia de redução dos seios e desfilavam de regata, sem sutiã, felizes pelos corredores da universidade. A escravidão do silicone gerando uma floresta igualitária, para não dizer fake, de seios duros e redondos, veio bem depois. Assim como os cabelos lisos e escorridos a base de chapinha ou progressiva. Nessa época, pelo menos com relação a seios, cabelos – e pelos presentes em certas regiões do corpo que hoje foram totalmente dizimados – a gente podia ser diferente.

No entanto, mesmo com uma certa liberdade para a diferença, as pessoas insistiam em nos encaixar em padrões. Eu, que nunca usei maquiagem e levei 40 anos para depilar as pernas – e olha que as minhas rivalizavam com as de muitos machos por aí – além do famoso bigode, forte herança lusitana, não conseguia me sentir encaixada. Até hoje me lembro da pergunta feita a mim, por um dos coleguinhas da engenharia, no meio de uma aula: “Não consigo te entender. Não sei se você é uma piranha que dá para todos os homens da turma ou uma tremenda sapatão que só gosta de mulher”. A minha reação diante de pergunta tão estapafúrdia – e, na época, não se falava em bullying ou assédio moral nem sexual – foi simplesmente olhar para aquele pobre ser humano e, coitado, tão perdido nas suas buscas por classificações seguras, e dizer: “Ora, se você precisa do rótulo, escolhe aquele que você preferir. O rótulo é seu, não meu. O que eu sou? Nem uma coisa nem outra, talvez as duas ao mesmo tempo. Eu sou humana.” Não acrescentei, humana demasiadamente humana, pois ainda não conhecia meu querido Nietzsche…

Como eu consegui dar essa resposta aos 19 anos? Bem, eu era filha dela, da dona Lucinda, que apesar de ter nascido em 1934, era mais moderna do que a maioria dos meus amigos e certamente mais liberal do que um certo eleitorado mítico que anda por aí. Ela falava de sexo sim, sem tabu, nem preconceito. Eu podia ir para as baladas e chegar às 5h da matina, sem problemas, era só avisar que chegaria bem tarde e trazer um pãozinho para comermos juntas no café da manhã. Ah, e ainda tinha o velho diálogo recorrente: “E aí, filha, arranjou algum gatão dessa vez? Não mãe, nenhum. Então que raios você ficou fazendo até essa hora? Dançando ué! Credo! Ficar toda suada e melecada, dançando numa boate sozinha? Deus me livre! Eu só ficava até tarde na rua se estivesse paquerando um belo pedaço de mau caminho”. E assim, abertamente sacaneada pela minha própria mãe, eu aprendi que podia não apenas atrair um pedaço, mas fazer meu caminho inteiro.

Um dia cheguei em casa do estágio e minha mãe estava dando conselhos a um amigo meu assumidamente gay que havia acabado de terminar um relacionamento. Ela falava naturalmente, da mesma forma que falaria comigo em relação aos meus namorados ou com as minhas amigas hétero em crise por terem levado um belo pé no traseiro. E não era para ser sempre assim? Deveria, mas infelizmente ainda não é. Em pleno século XXI, a visão de um beijo entre pessoas do mesmo gênero continua a causar mais impacto do que a morte de uma grávida negra no auge da vida…

Eu assistia a essas cenas de liberdade e empoderamento com uma admiração e um orgulho tão grande que, se pudesse, gravaria um vídeo e mostraria ao mundo inteiro, aos berros de: olha essa mulher! Ela é minha mãe! Como não existia rede social nem internet à época, sinto informar, mas essas cenas são exclusividade da minha memória.

O único problema disso – como tudo na vida, mesmo a liberdade tem um lado ruim – é  que eu acabava sendo excluída das rodas de “vamos falar mal dos nossos pais”, porque no meu caso, meus amigos sempre repetiam: pra você não vale. Sua mãe é diferente. Isso talvez tenha me trazido alguns traumas, pois, qualquer resquício de preconceito que eu possa ter ou demonstrar tem um e apenas um único culpado: eu mesma! É muito difícil não transferir uma responsabilidade desse tamanho para outro. É bem pesado ter que arcar com o bônus e o ônus de toda escolha ou atitude que se tenha. Novamente, vale a máxima do meu bigodudo preferido depois de meu pai: Aprendi que Deus estava morto ainda na adolescência…

Aprendi tanto com você mãe. Mas talvez o principal foi saber que amor é como água: não tem cor, nem cheiro, nem gosto, então, por que raios precisa ter gênero? E como água, melhor não tentar segurar, mas deixar escorrer, pra dentro da gente e ir tomando tudo, até os cantinhos que a gente insiste em vedar com placas de ocupado ou de fechado para reforma, e ver transbordar nos momentos mais improváveis, deixando os olhos vermelhos, fazendo óculos embaçar e a gente disfarçar alegando alergia à poluição ou ao atualíssimo álcool em gel.

Que as suas cinzas consigam se espalhar no ar – e na água – essa noção de que toda forma de amor vale a pena. Sem rótulo, sem gênero, talvez com um pouco de suor e algumas lágrimas. Faz parte.

Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP. Escreve às quintas-feiras, quinzenalmente.