Aquela velhinha baixinha, de cabelos encaracolados branquinhos com toques de violeta se transformava numa fera indomável
Maria Paula Curto*
Sempre me senti empoderada, mesmo quando esse termo ainda nem existia. Achava que podia tudo, de verdade, e que o fato de eu ter nascido sem o tal símbolo fálico de poder, mas com uma fenda, não me diminuía em nada, ao contrário, aquele buraco nada mais era do que uma abertura para infinitas possibilidades do meu ser. A ausência do falo não era desculpa para a impossibilidade de ações ou conquistas (tampouco deveria ser bengala quando presente). A diferença estava na minha atitude. No quanto aquele vazio impulsionava meu desejo. De vida. De ser. Para além dos seus contornos e limites. Não, eu não era uma heroína erguendo a bandeira feminista. Eu era apenas uma menina. Uma menina que foi educada por mulheres superpoderosas. Mulheres que questionaram regras e status quo e que mesmo sangrando, chorando, berrando – não, meus caros, nunca é fácil – chamaram a responsabilidade para si e me mostraram que outra forma de vida feminina, para além do “recatada e do lar”, era possível. Sorte a minha.

Marcha do 8 de Março pelo protagonismo feminino. Foto: Divulgação/Brasil de Fato.
Acho que já falei bastante aqui da minha mãe. Que me esperava para o café da manhã após a balada e ainda me sacaneava quando perguntava: “ E aí, arranjou algum bofe na boate?” e eu dizia que não e ela retrucava: “Mas que diabo você ficou fazendo até às 5h da manhã? Dançando? Pulando feito louca para ficar toda suada? Credo! Não sei como você consegue. Eu só ia a baile para arranjar homem. Detesto essa coisa de ficar toda melada. Ai minha filha, quanta incompetência a sua”… Se eu quis fazer teatro ou desfilar em escola de samba, aos 15 anos, lá ia ela me acompanhar na matrícula do curso ou no ensaio na quadra. Se eu resolvi estudar engenharia e fazer um pré-vestibular com 100 alunos sendo apenas 8 mulheres, por que não? O único pedido era: “Vê se estuda e bota pra quebrar. Você pode”. Se eu quis juntar trapinhos e viver em pecado antes de casar, tudo bem, ela ainda ajudou a escolher os móveis do apartamento. Se eu quis usar minissaia, ela mesma costurava várias, afirmando “Mostre enquanto é tempo”. Isso tudo levando em consideração que ela nasceu em 1934, perdeu a mãe aos 7 anos de idade e foi para um internato em colégio de freiras, onde tinha que rezar dia e noite e até tomar banho de roupa, pois ver o próprio corpo nu era pecado mortal. Como ela conseguiu manter essa mente aberta apesar de um cenário retrógrado e extremamente conservador? Sinceramente, não faço ideia. Só sei que ela jurou para si mesma que, se tivesse uma filha mulher, ela daria a essa filha a autonomia que não teve, para que ela pudesse ser o que quisesse, sabendo que pecado, na verdade, é não se permitir.
Mas eu posso ir ainda mais longe. Na madrasta da minha mãe, minha “avó-drasta”. Nascida no início do século passado, pobre, sem acesso à informação ou estudo e que, para início de conversa, aprendeu a ler e a escrever, vendo, de rabo de olho, enquanto varria a sala ou tirava o pó dos móveis, a “professora” dar aula para a filha da patroa. E não pense que a aprendizagem foi meia boca não. Ela, adulta, lia jornal todos os dias e sabia muito mais sobre as coisas do mundo do que muito pós-graduado que conheço… “A gente joga com o que tem”. Um fenômeno. Em plena década de 1920 / 30, entrava em bares – lugares exclusivos para homens – e pedia uma bebidinha. “Se eles podem, por que eu não?” Conseguem imaginar essa cena? Adorava cozinhar – sim, ela cozinhava divinamente, mas deixava a louça para o meu avô, numa democrática divisão de tarefas – sempre com uma caneca de cerveja gelada ao lado. “Meu combustível”. E ai de quem resolvesse aprontar com ela.

Mulheres que questionaram regras e status quo e que mesmo sangrando, chorando, berrando, chamaram a responsabilidade para si e me mostraram que outra forma de vida feminina, para além do “recatada e do lar”, era possível. Foto: Divulgação/ Cartoon Network
Aquela velhinha baixinha, de cabelos encaracolados branquinhos com toques de violeta se transformava numa fera indomável (não sei bem o porquê, mas a moda dos anos 70 e 80 para cabelos grisalhos era uma tintura que deixava os cabelos num tom de lilás que me tiravam do sério. Sempre quis ter aquela cor para os meus próprios cabelos e não o meu antigo castanho cor de burro quando foge). Uma vez, andando pelas ruas de Botafogo, no RJ, um carro passou numa poça d’água gigantesca e deu um banho de água barrenta nela. Pra quê… ele berrou feito louca e xingou o motorista até a última geração possível daquele ser, usando palavrões que a torcida do Mengão desconhecia. Não houve um pedestre que não olhasse arregalado e atônito, tentando entender como coube aquela leoa ensandecida num corpinho de um poodle. Fora as tiradas sempre certeiras e desconcertantes de quem nunca se deixava enganar e ainda tirava sarro dos coitados, desavisados, que tentavam. Eles perdiam todas. E ainda passavam vergonha. Dava até dó. Ninguém podia contra aquela senhorinha de 1,50m e sorriso maroto. Até mesmo a morte foi por ela, durante muito tempo, ludibriada. Uma vez, ao mostrar o resultado de alguns exames que ela havia feito a um médico especialista, ele afirmou categoricamente: “mas essa pessoa não pode estar viva! Não é possível!” Pois é. Era possível. Com uma pressão que girava em torno dos 24 X 17, viveu até os 80. Ela e a sua cerveja estupidamente gelada. Ela e suas sacadas geniais. Ela e seu espírito pioneiro e vanguardista, de quem sabia que o amanhã se faz agora.
Sei que ainda temos um longo caminho a percorrer na busca da igualdade de direitos, na conquista da liberdade para os nossos corpos, mas muita coisa já foi feita. Por mulheres como essas. Eu fui uma privilegiada por tê-las tão perto. De forma tão inspiradora. Só o que me resta é agradecer. Muito obrigada minha mãe. Muito obrigada minha avó. E que eu consiga ter a mesma força, a mesma garra, para mostrar as minhas filhas que o mundo também pode ser delas.
Fácil não será, mas quem disse que a gente gosta de moleza?

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP