Se me perguntam meus defeitos, prefiro dizer a verdade: que sou desorganizada, quase caótica e trabalho muito mais no improviso do que com planejamento (espero que meus chefes não leiam esse artigo), mas não pega bem falar assim, né?

Maria Paula Curto *

Estou cansada de tanto super-herói ao meu redor. Fico pensando como meu querido Pessoa: apenas eu sou ridícula nessa vida? Talvez. Olho para o lado e vejo um monte de empoderados, executivos, ricos, independentes e felizes. Com belíssimas fotos no Instagram. Só eu passo perrengue? Só eu acordo descabelada, com bafo para matar um touro e cheia de remela? Será? E todos esses corpos perfeitos, com barriga de tanquinho, sorriso Colgate e bom-humor escorrendo pelas orelhas? Não são meus, posso garantir. Eu tenho barriga sim (mais pneu que loja da Firestone), celulites mil, os músculos balançam com qualquer sudoeste mais forte, meus dentes são amarelos (e não, não vou parar de tomar café. Vai ficar assim mesmo), e costumo ficar mal-humorada e com raiva um montão de vezes ao dia. Será que só eu sou assim?

Nunca estive perto de um modelo de beleza ou de elegância. E como tinha consciência disso (pelo menos isso, né?), não chegava em nenhuma boate ou baladinha sozinha, estava sempre acompanhada de alguma amiga bem bonita. A tática? Elas atraíam os bofes e eu, que pelo menos era simpática, conseguia conquistar no papo. Nisso sim, eu era boa. E nem tentem me dizer que toda jovem é bonita (desde que bem cuidada, claro), que comigo não cola. O espelho é cruel. E bem real. Tenho testa grande, olho pequeno, um leve estrabismo convergente, bigode (puxei a mãe… portuguesa, claro!), boca pequena, queixo pontudo, sou dentuça e tenho papada. Desde sempre. Venhamos e convenhamos que não dá para atrair muita coisa com esse visual, certo? Mesmo com todo cuidado do mundo. Por isso, o jeito era apelar para a conversa e usar as amiguinhas de isca. Exploração das coleguinhas? Instinto de sobrevivência da minha autoestima. Até que deu certo. Passei da fase das discotecas (eita, entreguei a idade agora) com uma lista considerável de ficantes. A estratégia deu certo. Obrigada Tetê, Isabela, Simone.

No quesito esporte, nunca fui a número um no vôlei ou no queimado, mas pelo menos eu ficava no time titular. Era grande e isso ajudava. Aliás, esse é um outro ponto. Eu visto GG. Sim, GG. Tem gente que tem mania de me presentear com camiseta M. lamento. Não serve. Fica apertada nos peitos. Calça? 44 ou até 46. 40? Nunquinha. Fui do número 16 direto pro 42. E olha que nem me acho gorda, gorda. Um pouco cheinha eu diria… Mas sou cercada de gente que veste 40 ou 38. E tem o meu tamanho. Que magia é essa? Eu desconheço. Mesma coisa com o tal do OB. Enquanto eu comprava o super, minhas amigas diziam que se sentiam muito confortáveis com o mini, que aguentava o dia todo. No meu caso, até o super vazava depois de umas três horas. Mas isso deve ser só comigo né? Pois é, só eu sou assim.

Em tempos de megas, ultras e superes, quanto tempo falta para desabrocharmos o espírito de anti-herói? Foto: reprodução.

Item delicadeza. Nota zero. Sou muito estabanada, vivo com a canela roxa e nem tenho ideia de onde eu bati. É sério. Também não tenho noção de espaço. Aliás, costumo dizer que minha visão espacial é nula. Só consigo enxergar o eixo x e y, subiu o z, meu nome é ninguém (os matemáticos entenderão…). Eu costumava usar uma desculpa para essa minha total inabilidade com a questão de espaço: era porque eu não havia engatinhado. Eu andei direto. E, segundo eu li uma vez, quem não engatinha perde a noção de espaço. Gostei da explicação. Me acalmou por um tempo. Mas, sinceramente, no fundo, é apenas uma desculpa. Eu sou ruim mesmo com esse negócio de volume. Tampouco tenho senso de localização. Se eu não olhar um mapa, pode ter certeza de que vou para o lugar errado. Mas pelo menos eu sei o que é esquerda e direita! Ufa! Ponto pra mim!

Em entrevistas, principalmente com headhunters, as pessoas costumam dizer que seu ponto fraco é o perfeccionismo. Fala sério! Só se for para inglês ver. Eu não sou perfeccionista não. Sei bem que, na maioria das vezes, o feito é melhor do que o perfeito. Sem culpa nem stress. É o que temos para hoje. Se me perguntam meus defeitos, prefiro dizer a verdade: que sou desorganizada, quase caótica e trabalho muito mais no improviso do que com planejamento (espero que meus chefes não leiam esse artigo), mas não pega bem falar assim, né? Mas, de novo: só eu sou assim? Do impulso? Do caos? Em que momento da vida, só eu continuei humana e os seres ao meu redor se transportaram para o Olimpo, degustando ambrosia??? Acho que eu perdi essa parte da história. E a chance de alcançar a perfeição. Até o momento, continuo sendo humana, demasiadamente – e somente – humana…

Outra coisa impressionante: só eu faço cocô, xixi e produzo muito suor. Ainda mais no verão carioca, ou seja, durante 360 dias no ano. Impressionante. Ninguém mais tem chulé nessa vida. Pois bem, eu tenho. Lembro de um bendito de um sapato preto de verniz (não ria, era moda à época) que eu tive que doar por conta do cheiro. Nem eu mesma me aguentava. E eu também tenho que usar desodorante, sim. Agora, após a menopausa, estou melhor. Mas na adolescência, com 835 hormônios em ebulição, não havia leite de rosas que desse jeito, no fim do dia. Fora aquela pizza amarela na camiseta branca. Afff. Mas só eu transpiro nesse mundo, certo? Ah, e também sou a única a soltar pum. Sim, pum. Ninguém mais. Os executivos pediam quartos individuais em eventos da empresa por conta da privacidade, pois iriam trabalhar no hotel à noite e não podiam compartilhar informações confidenciais. No meu caso, eu queria apenas peidar em paz…

Perdão a todos vocês, deuses e super-heróis, por ser tão impura, torta, impaciente, imprecisa, sem noção, raivosa, sacana, debochada, escrachada, ridícula, complicada, prolixa, inconsequente, indecisa, infiel, linguaruda, equivocada, suada, feia, cagada, abusada, enfim, por ser tão gente. Foto: Reprodução/passeio pela história

Filhos? A mesma coisa. O de todo mundo é lindo, perfeito, cheiroso. Só os meus aprontam. Incluindo os pets. Todos têm anjos em casa. Os meus destroem o que veem pela frente. Meus poodles comeram até parede. Já imaginou? Parede? Além de 845 havaianas, sandálias, echarpes, vestidos, meias, calças e um sofá de couro… Os filhos alheios estudam 8 horas por dia, fazem judô, natação, inglês, espanhol, balé, violão, arrumam a cama, participaram do Masterchef Junior e leram toda a coleção do Harry Potter e da Agatha Christie. No original! As minhas filhas não largam o maldito Tik Tok, espalham roupa por toda a casa (menos no armário), mal sabem a tabuada e fazem Kumon de matemática na força do ódio! Fora que só eu perco a paciência, somente eu dou uns belos de uns gritos de vez em quando pela casa e apenas eu tenho uma vontade danada de bater nas duas de par em par até virar ímpar!! Somente euzinha. Os outros pais são tolerantes, equilibrados e acolhedores. Eu sou a bruxa má do oeste. Se a criança fez merda, e das feias, eu ainda tenho que ouvir: “Entenda, perceba, respire. Deve ser algum trauma, coitada, ou um sentimento profundo reprimido, uma forma de chamar a sua atenção, ou um leve déficit de atenção”. Será que alguém já parou para pensar que pode ser preguiça, gula, inveja ou uma mera sacanagem? Ou será que os 7 pecados capitais só existem para me punir??? 

Perdão a todos vocês, deuses e super-heróis, por ser tão impura, torta, impaciente, imprecisa, sem noção, raivosa, sacana, debochada, escrachada, ridícula, complicada, prolixa, inconsequente, indecisa, infiel, linguaruda, equivocada, suada, feia, cagada, abusada, enfim, por ser tão gente… Acho que errei de mundo.

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?”

(Fernando Pessoa, Poema em linha reta)

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.