Estou longe de querer disputar lugar com Deus. Aliás, Deus me livre dessa carga toda! (com perdão por usar o nome do digníssimo em vão…)

Maria Paula Curto

Deve ser muito difícil ser pleno, absoluto, invencível, insubstituível e todos os outros “in” que podemos imaginar. Já pensou, não poder falhar nunca? Ter que estar sempre pronto? Sempre consciente, em total domínio do seu corpo e sentidos? Não poder gaguejar, tropeçar, engasgar ou babar? Não ter nenhum direito a fazer qualquer caquinha, a não ser aquela, permitida, diária (como eu gostaria…) entre quatro paredes frias e azulejadas? Que difícil, não? Eu não daria conta dessa plenitude toda. Nem tenho qualquer anseio pelo seu encontro. Prefiro a paz de ser comum. De ser repleta de buracos a serem preenchidos. Uma espécie de queijo suíço existencial.

Tampouco tenho a pretensão de ser infalível. Sem falhas? Só Ele, o Todo Poderoso e olhe lá. Pois de vez em quando eu me pergunto se ele realmente não falhou ao permitir o nascimento e a procriação de alguns seres nesse mundo…  Estou longe de querer disputar lugar com Deus. Aliás, Deus me livre dessa carga toda! (com perdão por usar o nome do digníssimo em vão…) Não dou conta de tanta responsabilidade. Já basta cuidar de mim. E daqueles que me cercam (e que ainda dependem minimamente dessa pobre e frágil criatura aqui). E olha que o cuidado desse pequeno círculo de seres viventes já é tarefa para Hércules nenhum botar defeito. Imagine o mundo todo. Como diria a minha caçula: “Misericórdia!” Ser todo-poderoso deve cansar muito. E do jeito que a humanidade anda, pobre Deus, tanto esforço para quase nada.  

É o famoso: levanta, sacode a poeira e dá volta por cima. Lá vamos nós, de novo. Para mais uma queda. Mais uma falha. O bumbum fica até calejado de tanto tombo. Foto: Reprodução

E mesmo – ou talvez principalmente – para esses seres que ainda dependem de mim (espero que seja por pouco tempo), estou longe de ser perfeita. Estou sempre aprendendo. Na base da tentativa e erro. E eu erro pra caramba! Porque vida não tem ensaio nem rascunho. É no improviso. Às vezes, dá certo. Outras, dá muito errado. Mas não dá para parar. É o famoso: levanta, sacode a poeira e dá volta por cima. Lá vamos nós, de novo. Para mais uma queda. Mais uma falha. O bumbum fica até calejado de tanto tombo. Mas faz parte. O importante é não desistir.  Fazer aquele carão de supermodelo dominando a passarela e continuar a caminhar. Manter-se em movimento. Sempre em movimento.

E movimento precisa de combustível, de energia. No nosso caso, dos seres “falíveis”, essa energia vem da vontade. Do desejo. E desejo pressupõe vazio, falta. Nunca estaremos completos ou deixaríamos de caminhar, não conseguiríamos mais desejar. Assim é. Assim somos. E que bom que assim seja.

Nesse motus continuus, há sempre algo a incluir, a acrescentar, a apreender. E também algo para limpar, limar, abdicar, entregar, oferecer. Viver é – ou deveria ser – uma enorme e constante troca. De olhares, de saberes, de toques, de fluidos. Não há um momento sequer durante esse caminho que a gente não receba algo e não entregue algo. Estamos sempre preenchendo e esvaziando alguma coisa, em nós e em alguém. Esse encher e vazar, dilatar e diluir, engrossar e liquefazer, apropriar-se e desapegar-se é o que nos torna humanos. Esses seres desejosos. Faltantes e incompletos por natureza.

Nunca quis a completude. Ser completa significa ter chegado ao fim da linha. Eu não desejo a chegada. Eu sei o que me espera ao final da jornada. O que eu desejo? Ter energia e vontade para continuar o caminho. Manter a minha curiosidade. Permanecer com o olhar atento. Ao outro, ao que é de mim diferente. O mesmo cansa. Entendia. Empobrece. Apaga.

Anseio por um mundo em que se pense mais nas tessituras e menos nos brilhos. Em linhas que se cruzem sem que se interrompam, pontos que se completem porque diferentes. Com mais cores. E diferentes texturas. E que o avesso seja também importante. Que ele possa ser mostrado. Com fios, nós e arremates. Como todo avesso deve ser. E que eu esteja em paz com o avesso das coisas. Foto: reprodução/Mundo Estranho

Quero a chama sempre viva. Ardente. Queimando aquilo que não serve mais e preparando o solo para novo plantio. E se a primavera trouxer ventos e tempestades, que eles mexam comigo, me tirem do chão e me façam sair da mesmice, do reme-reme. Que raios me provoquem, incomodem. Até me tirar do eixo. Do equilíbrio. Quero (re)conhecer limites e fronteiras. Passar o dedo nas bordas. Lamber cada gota. Para que nada me escape.

Anseio por um mundo em que se pense mais nas tessituras e menos nos brilhos. Em linhas que se cruzem sem que se interrompam, pontos que se completem porque diferentes. Com mais cores. E diferentes texturas. E que o avesso seja também importante. Que ele possa ser mostrado. Com fios, nós e arremates. Como todo avesso deve ser. E que eu esteja em paz com o avesso das coisas: da pele, da carne, de si. Que a gente não precise esconder, que não tenha vergonha de mostrar. Pois somos também o avesso. O outro. O que não é o mesmo. O belo está na harmonia do assimétrico. Na voz apaziguadora do fluxo, da corrente, do que não cabe em si. Que a gente deixe escorrer, fluir, transbordar. Ou simplesmente, existir.

Eu gosto dos que têm fome

Dos que morrem de vontade

Dos que secam de desejo

Dos que ardem…

(Senhas, Adriana Calcanhoto)

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP