Acabou a história de passar a manhã de sábado no meio de tesouras, tintas, secadores barulhentos e conversas sobre os temas para os quais eu sempre fui uma total ignorante, como lançamentos do setor de cosméticos ou em lojas on-line.
Maria Paula Curto*
Nunca fui vaidosa. Agora, mais velha, a situação ficou ainda mais grave. Pois uma coisa é ser jovem, com tudo durinho, no lugar (obrigada santo colágeno!), e outra coisa, bem diferente, é achar que vai continuar da mesma forma aos 56. Não dá, né? Principalmente se, além de não fazer nenhum exercício físico (ok, não é somente por estética. Eu vou ter que me render à musculação, apesar dos pesares…sniff), não uso nenhum tipo de maquiagem – nem um singelo batom ou lápis de olho, nada mesmo – nem fiz ou tenho a intenção de fazer qualquer tipo de procedimento estético como botox, preenchimento com hialurônico, silicone ou um simples peeling. Inclusive, devo dizer que, após a pandemia, nem pintar o cabelo eu pinto mais. Aliás, nem mesmo as unhas (da mão, porque as do pé se eu fiz umas 5 vezes na vida foi muito!) eu ando fazendo ultimamente. Me libertei do salão por completo. Acabou a história de passar a manhã de sábado no meio de tesouras, tintas, secadores barulhentos e conversas sobre os temas para os quais eu sempre fui uma total ignorante, como lançamentos do setor de cosméticos ou em lojas on-line ou ainda, o mais estranho e estrangeiro de todos os assuntos: técnicas para conseguir o homem dos seus sonhos nos aplicativos de relacionamento, como se meus sonhos e aplicativos pudessem habitar o mesmo espaço…

Envelher: um respiro de objetividade, entre coisas simples e sonhos não realizados? Quadro: Narciso, Michelangelo Caravaggio.
ato antinarcísico
Confesso ter achado que, com o passar dos anos e a chegada das rugas e das pelancas – sim, elas chegam, não tem jeito – eu fosse mudar e me aventurar no mundo das técnicas e procedimentos mágicos e indolores do “resgate da juventude perdida”. Mas não. Continuo resistindo bravamente. E mesmo roupas e acessórios, compro somente o básico, em lojinhas de rua ou em superpromoções. Sempre fui meio “riponga”. Jamais me permiti uma roupa ou um sapato de marca. Até o vestido de casamento – sim, acredite, eu fui casada um dia! – eu comprei em promoção e ainda usei como vestido de festa em várias ocasiões. Para amortizar o investimento. Não conseguia imaginar uma compra tão cara para um dia somente. Muito desperdício têxtil, não é mesmo?
E essa falta de vaidade, ou de noção de estética, como preferir, vai muito além do meu corpo. Com o carro também sempre foi assim. Para que um carro novo, se o meu está funcionando tão bem? Aumentar IPVA? Seguro? Para quê? O carro anda bem direitinho, tem um porta-malas enorme e consome pouco. Câmbio? Adoro passar uma marcha. Aliás, no meu encalhe atual, sem ver ou tocar qualquer coisa fálica faz anos, passar a primeira no meu Spacefox era quase um orgasmo. Para que abrir mão disso? Com a insistência de meu pai, e o aval de duas adolescentes ansiosas por um carro grande e bonitão, fui voto vencido e acabei trocando o bendito do automóvel. Resultado: estou em crise. É como se o carro não me pertencesse. Estou com dificuldades de me ver dentro dele. Ele não combina comigo. É bonito demais. Fora, que depois de uns 30 anos entre Paratis e Spacefoxs, meu cérebro, que já não é dos melhores na visão espacial, não consegue se acostumar com o tamanho do carro. A cada pilastra da garagem, escorre uma gota de suor. Medo de arranhar a belezura. Medo de não corresponder àquela potência. De não fazer por merecer.
Quer outro exemplo? Meu apartamento. Sempre tem algo por fazer, não terminado, esculhambado, quebrado. No início, era por total falta de dinheiro. Depois, de tempo e paciência para acompanhar uma obra que durou quase um ano. Terminou por decreto. Ou ela ou eu! E vamos deixando parede sem rodapé, sem estante, sem quadros. A porta do armário das meninas caiu? Dá para usar? Então deixa assim. Melhor. Faz o ar circular. Ajuda a eliminar o mofo. A persiana do quarto quebrou? Deixa fechada. Adoro dormir no escurinho. A cozinha está precisando de uma reforma? Vamos deixar para o ano que vem? Nesse, eu quero viajar e não vai dar para fazer as duas coisas. E assim, vou empurrando as obras com a barriga e deixando a casa (a casa?) ir se desmontando aos poucos.
Por que essa recusa ao belo? Por que eu, intencionalmente, sempre deixo a beleza de lado, assumindo o discurso do prático, do rápido, do simples? Por que não me permitir o “dia de princesa”, o batom vermelho, a lingerie de renda e arame, para levantar até a alma? Por que não um blush, um gloss, um glitter? Do que eu tenho medo? O que eu quero provar? Que eu sou bonita por natureza? Sorry euzinha, mas não nasci com tamanhos atributos. Sou, no máximo, a “feinha arrumadinha” e simpática (se bem que, agora, nem sempre…). Que eu tenho que me fazer valer pelo meu “lindo intelecto”? Ah, coitada. Meu pobre intelecto está longe de ser essa lindeza toda. E que também precisaria de vários, ou melhor, muitos retoques. Que a humanidade precisa ver a minha “beleza interior”? Lasquei-me novamente. Não sou nenhum poço de virtudes. Ao contrário. Estou cada dia mais intolerante, chata, egoísta, medrosa, cínica… Por que raios então eu não me permito essa tentativa, mesmo que superficial, artificial, de embelezamento? O que escondo atrás dessa feiura permitida ou, em certa medida, desejada? O quê?
A eterna possibilidade do vir-a-ser. Como se eu preservasse com toda a atenção do (meu) mundo um menu de alternativas daquilo que ainda posso ser um dia. Não agora. Não hoje. Por favor. Me deixe permanecer iludida. Eu preciso ter a sensação de que posso melhorar. De que basta fazer alguns retoques, apertos, enxertos, de pele, de carne, de vida, para eu me tornar aquela que eu sempre deveria ter sido…

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP