Enquanto o elevador continua sua lenta subida comecei a remoer as minhas opções para evitar o inevitável horror de virar um verdadeiro maracujá de gaveta: injeções urgentes de botox, lifting facial, retirada de papadas e pálpebras caídas, silicone no peito e muita, muita ginástica e musculação

Maria Paula Curto*

Cenário:

Elevador panorâmico de uma clínica odontológica de alta tecnologia, às 14:30 de uma terça-feira ensolarada e inacreditavelmente quente para um inverno paulistano.

Personagens:

Personagem número 1: Eu. Mulher adulta, 56 anos, grisalha assumida, sedentária, comilona, mas feliz e saltitante, visto que o tratamento do dia seria leve, sem necessidade de anestesia. Coisa relativamente rápida. Era apenas para tirar a medida do dente para implantação de uma coroa definitiva e colocação de um bloco provisório (o coitado até já caiu. Acho que se recusou a ficar nesse corpitcho estressado e abandonado)

Personagem número 2: A nova dentista. Odontóloga especializada em implantes, recém-admitida na clínica. Jovem, mas repleta de diplomas e certificados.

O pequeno, mas bastante elucidador, Diálogo:

Boa tarde, tudo bem?

Boa tarde, tudo bem sim e a senhora?

Tudo ótimo. Demorei para voltar, não?

Imagina… (toda sorrisos)

É que, depois de ter feito o canal, viajei, levei um tombo, me enrolei no trabalho… (eu e a minha louca vida louca), mas agora estou aqui, prontíssima para a nova coroa.

É coisa bem simples e rápida, a senhora vai ver.

Sem problemas, eu sou muito tranquila com dentista. Acredita que eu quase dormi durante o tratamento de canal, com o Caio? (acredite se quiser, eu dei algumas cabeçadas, de sono, com aquela borracha azul separando os dentes, enquanto o endodontista – adoro esse nome – enfiava aquelas agulhinhas na gengiva para matar o nervo. Acho tão surreal. Só eu mesma, não?)

Com o Caio?

Sim, o Caio! Ele tem uma mão tão leve e fala tão baixinho, que eu acabo dormindo. Uma gracinha ele, não?

(Não sei o que ela entendeu, mas logo após ouvir essa frase, ela me solta):

Você é AVÓ do Caio?

Detalhe: Caso vocês ainda não tenham percebido, Caio não é uma criancinha que visitava a clínica. Nem tampouco o estagiário ou residente. Caio é o chefe da endodontia da clínica, ou seja, por baixo estamos falando de alguém de uns 30 anos, no mínimo! E ela me perguntando se eu era não a mãe, mas AVÓ, sim, repito, a AVÓ do Caio!!!!

Então, das duas uma: ou você começa tardiamente a se entupir dos 1847 procedimentos cirúrgicos, químicos ou mecânicos, que os dermatologistas e blogueiras peruas insistem em propagandear por aí, ou você assume de vez a sua velhice. Foto: Reprodução.

Pensei em me jogar do elevador, mas como a clínica tem apenas 3 andares, não seria nada tão dramático assim. Talvez uma perna ou clavícula quebrada. Pensei em chorar ou babar contundentemente, para talvez gerar uma espécie de compaixão por seres em estado de grande vulnerabilidade. Ou ainda, alternativamente, imaginei xingar aquela pessoa sem noção, em alto e bom som, mostrando uma debilidade senil que poderia me livrar de um futuro processo de difamação ou escândalo público, mas que comprovaria, de fato e de direito, minha faixa etária avançada.

Resolvi escolher uma quarta alternativa: negar a hipótese – não, eu não era a AVÓ do Caio – e permanecer em silêncio, lançando um olhar 86 (43 não seria suficiente) para aquela pessoa surreal, incongruente, desarrazoada, que tomaria conta da minha boca pelas próximas duas horas, aproximadamente.

Enquanto o elevador continua sua lenta subida – e naquele momento aqueles três andares pareciam 130! – comecei a remoer as minhas opções para evitar o inevitável horror de virar um verdadeiro maracujá de gaveta: injeções urgentes de botox, lifting facial, retirada de papadas e pálpebras caídas, silicone no peito (não para aumentar, mas para enrijecer), e muita, muita ginástica e musculação (maratona ou cross fit, talvez). Tudo isso junto e misturado, aqui e agora, para que eu possa voltar a ter, pelo menos, a aparência da mãe do Caio e não da AVÓ do pobre coitado! Ou seria eu a pobre coitada??

O elevador chega ao andar. As portas se abrem e, no caminho até a sala, minha mente, ainda em choque, resolveu acionar seu mecanismo tranquilizador: a matemática. Sim, pasmem, eu me tranquilizo com números, fórmulas, equações. Chego perto de um delírio orgasmático com um plano cartesiano, preciso confessar. Bem, lá fui eu fazer conta. Imaginando que eu tivesse um filho aos 15 anos (e naquela semana, por acaso, eu tinha almoçado com uma amiga que, sim, teve seu primeiro filho com 15 anos. E um filho maravilhoso, que foi e continua sendo muito bem cuidado por ela, diga-se de passagem), e esse filho também tivesse filho com 15 anos (se você acha isso impossível, devo lembrar que o ex-jogador Raí foi avô aos 33 anos! Que vôzão, não? Deus meu…), eu poderia sim ser avó de um jovem de 26 anos! Ou seja, por mais estapafúrdia que fosse a tal pergunta num primeiro momento, ela fazia total sentido lógico matemático.

É, Maria Paula – pensei com os meus botões – você tem idade suficiente para ser avó de um adulto. E todas as vezes que as pessoas perguntam se você é a esposa do seu pai, não, não é porque seu pai está super em forma – o coroa está bem sim, isso lá é verdade – mas você está bem acabadinha, meu anjo. Então, das duas uma: ou você começa tardiamente a se entupir dos 1847 procedimentos cirúrgicos, químicos ou mecânicos, que os dermatologistas e blogueiras peruas insistem em propagandear por aí, para tentar dar um mínimo up nessa sua cara de buldogue dos trópicos e aparentar uns 50 menos e não 70+, ou você assume de vez a sua velhice e total ausência de colágeno nesse 1,70m /70 kg de corpo e segue em frente, feliz e orgulhosa, por ter conseguido chegar até aqui, sem nem um mísero batom ou creme hidratante (nem mesmo um protetor solar!). Simples assim.

Nem preciso dizer a minha escolha. Levantei daquela cadeira me sentindo poderosa, absoluta, dietética e vitaminada. Totalmente convencida de que meu corpo pode ter rugas, pelancas e banhas. Mas ele conta uma história. A minha história. E não abro mão dela por aparência nenhuma nesse mundo.

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*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP