O povo na rua deve ter pensado de duas, uma: ou eu era uma médica muitíssimo ocupada que saí do hospital direto para a rua ou, o mais provável, que eu era completamente louca!
Maria Paula Curto *
Essa semana eu me superei na loucura. Realmente, se eu não desacelerar meu ritmo, não sei onde vou parar. A história é simples e rápida. Fui ao dentista para terminar um tratamento de canal e, no consultório, desde a pandemia, nós somos orientados a usar uma touca e uns protetores para os pés, para evitar contaminações e melhorar a higiene do local. Cheguei esbaforida, pra variar, pois havia me atrasado numa reunião on-line e ainda fui correndo levar a cachorra na rua (a coitada não tem culpa da minha desorganização) e já comecei a confusão logo de cara, pois coloquei uma touca no pé achando que era o tal protetor dos sapatos. Mas como protegia da mesma forma, deixei por isso mesmo e fiquei com: uma touca na cabeça, outra no pé esquerdo e o tal protetor no direito. Uma figura bem estranha, diga-se de passagem. A consulta foi relativamente rápida, nem precisou de anestesia e eu num papo animado com a dentista (vocês também conversam no dentista com a boca toda torta e quase babando ou só eu faço isso??) sobre as férias dela, num tração nas 4 passando por Lençóis Maranhenses, Delta do Parnaíba e Jericoacoara (legal, né? Eu babei. Literalmente.) Paguei a consulta, desejei boa viagem e saí rua afora toda animada.

No caminho, resolvi passar na farmácia (a gente sabe que está envelhecendo de verdade quando qualquer caminhada vira motivo para uma passadinha rápida em uma drogaria e a gente chega em casa carregada de sacolas…de remédios….) e almoçar num japonês que fica perto de casa, muito bonitinho e que sempre fica lotado. Comi super bem, como sempre, a comida estava ótima. Ao sair, a mocinha da entrada ainda perguntou se eu havia sido bem atendida e eu, prontamente, respondi que “sim, muito bem atendida”. Me achando. Plena e absoluta no japa de Pinheiros. Continuando a caminhada de volta para casa – devo ter andado uns 2 km mais ou menos – lembrei que precisava sacar dinheiro. Entrei numa agência Prime (ai, como sou chique!!! SQN), vi que o segurança me lançou um olhar meio estranho, como se dissesse “O que essa louca veio fazer numa agência chique, se ela não tem a menor pinta de Prime/Personnalité”? Lancei o meu olhar 43 de “caguei solene para o que você pensa de mim”, saquei meu suado dinheirinho e fui para casa. Cumprimentei o porteiro no corredor, peguei o elevador, abri a porta de casa, falei com a Lena, que me recebeu como se eu tivesse ficado dois anos fora (cachorro é tudo de bom nessa vida, não? Tanta felicidade só porque a gente existe. Isso não tem preço!) e fui direto pro quarto trocar de roupa. Sentei na cama e quando fui tirar o tênis, qual não foi minha surpresa ao perceber que eu fiz todo esse trajeto com os protetores ainda nos pés!!!! Eu simplesmente havia esquecido de tirar ao sair do dentista! Agora, imaginem a cena: a figura aqui de vestido lilás, kimono verde, colar de corrente azul (“toda fashion”), máscara branca e os protetores, ou melhor, um protetor e uma touca cobrindo os tênis!!! O povo na rua deve ter pensado de duas, uma: ou eu era uma médica muitíssimo ocupada que saí do hospital direto para a rua ou, o mais provável, que eu era completamente louca! (Sou daquelas que acredita fortemente na segunda hipótese).
Depois de controlar o riso – confesso que ri de mim mesma até quase fazer xixi nas calças – fiquei me perguntando como isso pode ter acontecido. Bem, a primeira hipótese, a mais simples de todas, é que eu sou muito desligada mesmo e, como sempre estou com pressa, saí correndo do dentista, fui fazer mil coisas e nem me dei conta de que estava com aquilo ainda nos pés. Mas será que é só isso? Não, não vou pensar numa alternativa mais dramática de achar que eu estou, de fato, enlouquecendo, que o Alzheimer da minha mãe é mesmo hereditário ou que tem algum tumor na cabeça que está me impedindo de pensar direito. Não. Isso seria muito pessimismo de minha parte. Apesar de esses fantasmas me assombrarem algumas vezes…

Uma incomunicabilidade diária?
Mas entre o branco e o preto existem mais do que cinquenta tons de cinza (sic) e eu comecei a analisar o que me fez caminhar quilômetros sem perceber que algo estava errado. E sem que ninguém percebesse. Ou tivesse coragem de me avisar. Será que o olhar esquisito do segurança da agência bancária não era para a minha falta de adequação ao “estilo Prime”, mas para o meu pé e aquela “capa estranha”? E a pergunta da hostess do japonês? No fundo, era apenas pró-forma, pois se ela realmente estivesse interessada em mim, será que ela não poderia ter me avisado? Ou será que, assim como eu, ninguém percebeu o que havia de errado comigo? Será que não olhamos mais para os outros? A gente não se enxerga mais? Vivemos confinados na nossa própria nuvem? Ou será que alguém até percebeu, mas teve medo de se aproximar e falar comigo? Tenho tanta cara de bruxa má do oeste assim ou as pessoas andam temerosas com as reações extremadas que a nossa sociedade anda vivendo esses dias? Será que se fosse ao contrário eu perceberia? E se percebesse, eu teria coragem de falar?
E o que mais me preocupa: Como eu mesma andei tudo isso sem notar o que se passava comigo? Sem olhar para onde eu estava pisando? Há quanto tempo eu estou caminhando sem nem ao menos olhar em volta? Será que o meu automatismo está me cegando para o que não faz parte do TO DO list? Começo a achar que a minha vida está tão recheada de “não ser” que o meu ser está ficando pelas esquinas, preso nos bueiros, entupindo o fluxo. Até quando?
E os meus pés? Como eu pude andar tanto, sem ver os meus próprios pés? Há quanto tempo eu não olho os meus pés? Olhar mesmo, de verdade. Enxergar esses coitados que me carregam faz 55 anos, todo santo dia, chova ou faça sol. Com calos, bolhas ou até machucados, eles estão sempre lá, me servindo de base para eu poder continuar. E eu nem me dou ao trabalho de olhar para eles. Quanta ingratidão!
O que mais está à minha volta e que eu deixei de ver, assumindo que esse é o papel deles? Quem mais eu deixei de lado, envolto em uma touca hospitalar descartável, para viver nessa aceleração robótica em que se transformou o meu dia-a-dia?
Após um banho demorado, peguei um pote de creme e fui massagear aqueles dois esquecidos. Do calcanhar até os dedos. Calma e vagarosamente. Prometendo que, a partir de agora, eu faria diferente. Com maior atenção. E cuidado. Eles merecem, eu mereço: Nós merecemos…

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.