Casais
observação urbana, solidão, relações humanas, cotidiano, crônica
Formava pequenas poças na calçada. Olhei para cada uma delas tentando perceber o seu reflexo. Em vão. Não há narciso em mim. Maria Paula Curto* A mulher era bem mais alta do que ele, o que chamava atenção de todos na praça. E olha que ela não usava salto. Ela era gigante e o rapaz, que aparentava ser mais novo, era quase um tampinha. Mas as mãos não desgrudavam. Marcavam um fim de semana na praia, creio que na casa do tio dele, para aproveitar esse calor fora de época em terras paulistanas. Não sabiam se sairiam na sexta pela manhã, para evitar trânsito, ou mesmo na quinta, fim do dia. Com o home office, bastava levar o micro e tudo certo. Ela não queria ir na quinta. Não mesmo. Alegava mil reuniões com chefe, pares, clientes, todas no fim do dia e que certamente estaria exausta. Não sei. Parecia que havia algo mais. Talvez algum encontro secreto com um outro, que conseguiria abraçá-la por trás e beijá-la na nuca, como sempre desejou. Um homem alto, bem alto, que daria seu peito em oferta à sua cabeça, ali, no meio daquele jardim e que a faria rodopiar ao som da sua voz grave, cantarolando Chico. Essa quinta não. Por favor. Deixe a moça rodar. Ela precisa. O que não passa é a sensação de que, nessa praça, só há uma pessoa realmente sozinha. Foto: reprodução. Na outra esquina, dois rapazes, conversando animadamente e com aquele sorriso no rosto de quem está se descobrindo fresco, jovem, repleto de energia. Eles falavam, falavam e falavam. As palavras eram jogadas num ritmo tão rápido, e iam caindo, caindo, umas sobre as outras, sem nenhum sentido lógico. Mas o que a lógica tem a ver com isso? O que se desenrolava naquela cena prescindia da razão. Transbordava pelos poros. Escorria pela pele. Formava pequenas poças na calçada. Olhei para cada uma delas tentando perceber o seu reflexo. Em vão. Não há narciso em mim. Embaixo da marquise da loja fechada – mais uma que não resistiu à pandemia – havia quatro pés embaixo de um papelão. Sujos, cheios de feridas, próximos, quase entrelaçados. Dois deles estavam entregues. Inertes. Os outros dois encontravam-se rígidos, como em posição de vigilância, preparados para uma possível fuga. Bastava um aviso, um alerta, um chamado. O problema era saber para onde aqueles pés poderiam seguir. Que caminhos eles conseguiriam percorrer. No entorno desses pobres pés, havia restos de comida dentro de uma marmita de alumínio amassada e algo que… parece…ai Deus… não parece, é. É um cachimbo. Percebo então que a fuga já se deu. E pelo visto, há bastante tempo. Um pouco mais a frente, vejo uma moça se despedindo de alguém. Olho em volta e voilà! Lá está ele. Um belo rapaz atravessando a rua para entrar num carro de aplicativo. Após cumprimentar o motorista – o moço é bem educado – e fechar a porta traseira com cuidado, ele sorri para ela. Ela sorri de volta. O sinal abre, o carro acelera e desaparece. Do sorriso meio amarelo, já saudoso, nasce uma certa tristeza que vai tomando todo o seu rosto, o pescoço, e para no peito. Ela muda de fisionomia. Não consegue disfarçar. Ninguém consegue disfarçar esse medo. Esse vazio. Que dói bem mais que uma bela topada na canela. Ainda bem que vai passar. Sempre passa. O que não passa é a sensação de que, nessa praça, só há uma pessoa realmente sozinha. E eu tenho certeza de que vocês sabem quem é. *Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP
Texto originalmente publicado em Revista Fina