Ligia Zilbersztejn

Em outros tempos, eu teria simplesmente pensado: entrego a bolsa com a carteira, o celular e as chaves do carro e pronto. Mas o problema era um pouco maior do que esse.

Maria Paula Curto

Chovia. Aquela chuva fininha que não molha muito, mas incomoda o suficiente e suja as lentes inteirinhas. E a gente fica sem saber o que fazer, se tira os óculos e limpa – e aí geralmente, borra tudo um pouco mais – ou se segue em frente e fica tentando adivinhar os contornos das coisas naqueles pequenos espaços sem as gotas de chuva. Sim, meus caros, vida de míope não é fácil e por conta desse tipo de indecisão e “neblinas”, eu já cometi muitas gafes. Mas ok, isso fica para uma outra história.

Em todo o caso, por conta da chuva, resolvi arriscar e ir para o centro de SP de carro. Geralmente, quando eu tenho que ir ao centro, eu prefiro ir de metrô ou de Uber, acho muito mais prático e seguro, mas como minha filha tinha feito escova no cabelo, ela não poderia correr o risco de molhar sua obra de arte ao andarmos até a estação ou no “enorme trajeto” entre a marquise e a porta do táxi, e ver sua beleza tão arduamente conquistada em horas daquele vapor quente nas orelhas se transformar num conjunto de cachos rebeldes quase que instantaneamente. 

Enfim, como uma boa mãe em defesa de sua nova cinderela urbana, coloquei o endereço no Waze e lá fomos nós, umas 11h da manhã, em direção ao SESC Bom Retiro, para assistir a uma peça, chamada “Quando eu morrer, vou contar tudo a Deus”, baseada em uma daquelas histórias reais que fazem a gente olhar para o céu, agradecer a Deus e pedir perdão por algum dia ter reclamado do trânsito, do calor ou daquela dor nas costas (porque a gente insiste em ser sedentário e não faz uma grama de exercício)

No caminho, vimos uma aglomeração de gente (sim, nessa época, isso era permitido) na calçada em frente a uma casa à direita, e que começava a avançar para a rua. Minha filha fala logo: deve ser fila de emprego. Vou me aproximando com o carro devagar, pois o sinal de trânsito fica amarelo e percebo que se tratava de um local de acolhimento para morador de rua e que estava prestes a abrir e oferecer o que deveria ser o almoço (mas que, no caso, seria provavelmente a única refeição daquelas pessoas). O sinal fecha, eu tenho que parar e vejo um dos homens, com uma aparência terrível, se aproximar do carro. Começo a ficar tensa, pois não há o que fazer, já que na minha frente havia mais carros parados. E eu não sou James Bond para ligar alguma turbina e sair voando por aí, infelizmente…

Tentando evitar que ele se aproximasse mais, fiz o famoso sinal com o polegar para baixo, indicando que estava sem “trocado” – e estava mesmo, mas além disso, eu não tinha a menor intenção de abrir o vidro – mas o homem continuou caminhando e parou bem ao lado da minha janela. Comecei a suar frio, a ter contrações na barriga e a pensar o que eu iria fazer se aquele homem resolvesse nos assaltar.

Em outros tempos, eu teria simplesmente pensado: entrego a bolsa com a carteira, o celular e as chaves do carro e pronto. Mas o problema era um pouco maior do que esse. Não era somente dinheiro ou o carro que ele queria. Aquele homem desejava muito mais. Ele olhava para a minha filha, a tal deusa urbana do cabelo liso, como um animal selvagem, e chegava a babar. E eu ali, entre a saliva dele e o meu suor, contando os segundos para o bendito sinal abrir, tentando manter um certo equilíbrio, mas fracassando terrivelmente… 

Minha filha, que a princípio estava super calma e olhava para mim sem entender o motivo do meu desespero, começou a ficar tensa também, achando que ela poderia chegar atrasada e não ter tempo de brincar com os seus amiguinhos de escola antes de a peça começar.

Chegamos com folga no SESC. Ela conseguiu brincar. Enquanto eu me sentei numa mesa para refletir sobre o que tinha acontecido. Não que uma tentativa de assalto fosse algo tão incomum no centro de uma grande cidade. Mas refletir sobre a minha reação e a dela. E o porquê de tanta diferença. Não, não era inocência. Era outra coisa. 

Enquanto para mim, aquele homem era o “outro”, para ela, ele era simplesmente o “mesmo”. O cotidiano dela, até bem pouco tempo atrás, era povoado por homens como aquele. Talvez seu pai, seu padrasto, seus tios e até mesmo seu querido avô eram muito parecidos com aquele homem e, talvez, tivessem até o mesmo olhar faminto. É claro que ela não entendeu o meu desespero. Ninguém teme seu semelhante. 

Por outro lado, ao ver meus amigos falarem, o modo como eles se vestem, os lugares que frequentamos, ou até mesmo ao olhar a minha estante da sala repleta de livros de literatura estrangeira e filosofia, com uma edição bilíngue da Metafísica do Aristóteles, minha filha tenha a mesma sensação de violência que eu tive naquele dia, só que com o “sinal invertido”. Em casa, no meu cotidiano, o que para mim é o mesmo, para ela talvez seja um outro tão ou mais agressivo do que aquele homem do Bom Retiro. Principalmente quando pensamos que, no caso dela, para ela conseguir ir em frente, será necessário esperar muito mais do que o tempo de abertura de um sinal de trânsito…

Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP. Escreve quinzenalmente, às quintas-feiras.