Qual é a cor de um bom dia?
racismo, preconceito, maternidade, reflexão social, experiência pessoal
Mas, sinceramente, mesmo que esse bom dia viesse, os olhares foram tão reveladores que o silêncio foi apenas uma moldura bem elaborada para a cena de aversão à cor amarronzada das minhas meninas. Uma cor que, aos olhos dos frequentadores daquele conjunto de prédios de luxo, não “ornava” com a paisagem. Maria Paula Curto* Chegamos na Riviera e o dia estava lindo. Fomos correndo deixar as malas no apartamento e descemos bem rápido pelas escadas, para aproveitar o dia ensolarado, já que a meteorologia anunciava uma frente fria para o dia seguinte. E a gente não podia perder a chance de, pelo menos, colocar os pés na água do mar. Fazia muito tempo que a gente não sentia aquele cheirinho de maresia e o barulhinho gostoso das ondas. Para uma carioca da gema, esse cheiro de mar é praticamente um bálsamo revitalizante, resgatando energias das profundezas da alma. E o que a gente mais precisa nesses tempos pandêmicos é de uma boa dose de energia… Logo ao sairmos do prédio, eu e minhas princesas de Wakanda – sim, minhas filhas têm a cor de uma média com pão na chapa, uma com mais café, outra com um toque a mais de leite, (e eu na cor do pão francês, amassado e já meio murcho), mas ambas no tom “cremoso de um cappuccino” – passamos por um casal com seu filho pequeno e eu, toda alegre e saltitante, imaginando o momento daquele reencontro tão esperado entre minha pele e a água salgada e espumante, soltei um “Bom-Dia!” em alto e bom som. “Para uma carioca da gema, esse cheiro de mar é praticamente um bálsamo revitalizante, resgatando energias das profundezas da alma.” /Foto: Acervo pessoal da autora Estava toda sorridente – o que o casal certamente não viu, por conta da máscara, que eu não abro mão mesmo na praia, por medida de segurança (e por um medo terrível de pegar esse maldito vírus) – e esperei ansiosa pela resposta, achando que aquele poderia ser um início de uma bela manhã entre vizinhos unidos, que jamais serão vencidos. Alguns segundos se passaram e a resposta ao meu sonoro “Bom-dia!” não veio. Aguardei um pouco mais. Porém, o que veio em troca da minha simpática, quase eufórica, saudação foram olhares assustados – e um pouco enojados – de quem achava que a coloração marrom da minha dupla não combinava em nada com aquele céu azul. Um silêncio de quem tinha certeza de que naquele lugar “tão cheirando a brilho e a cobre”, não cabiam pessoas com aquele tom de pele achocolatado. Confesso que hesitei. Fiquei na dúvida se insistia um pouco mais na saudação – será que eles não me ouviram? –, se perguntava se algo estava errado com a nossa presença meio que interferindo naquela paisagem tão “arianamente bucólica” ou se deixava pra lá e continuava meu caminho até o mar. Fiquei com a terceira opção. Mesmo que isso tenha provocado um certo bolo no estômago e um vazio nas entranhas que mar nenhum conseguiria mais dissipar. A alegria foi embora junto com aquele silêncio. Era pedir muito ter um mero bom-dia como resposta? Mas, sinceramente, mesmo que esse bom dia viesse, os olhares foram tão reveladores que o silêncio foi apenas uma moldura bem elaborada para a cena de aversão à cor amarronzada das minhas meninas. Uma cor que, aos olhos dos frequentadores daquele conjunto de prédios de luxo, não “ornava” com a paisagem. Talvez nem o rei Roberto Carlos demonstrasse tanta ojeriza ao tal do marrom, se ali também estivesse presente. “Estavam sorridentes. Felizes. Suas peles brilhavam. Em furta-cor. Refletiam a luz de uma utopia possível. E humanamente incolor…”/Foto: Acervo pessoal da autora Fiquei me perguntando se existe uma cor adequada para determinados lugares. Ou para certas pessoas. Será que minhas filhas não combinam com condomínios de luxo à beira da praia? Será que seus coloridos se harmonizam apenas com as periferias urbanas e seus matizes de cinza? Talvez combinem com desenhos em nanquim sobre papel “pardo”? Ou pior: seus tons de chocolate somente aceitariam pinceladas de vermelho sangue, escorrendo pelas sarjetas e se acumulando em poças escarlates no asfalto, resultado da aquarela dos nossos preconceitos nada estruturados? Será? Em poucos metros, chegamos à praia. O céu continuava azul, o mar tinha alguns tons de verde, a areia nem era tão branquinha assim e o nosso guarda-sol era amarelo. Sentei na minha canga em tons de rosa e violeta, num fundo preto. Minhas filhas foram correndo para o mar. Estavam sorridentes. Felizes. Suas peles brilhavam. Em furta-cor. Refletiam a luz de uma utopia possível. E humanamente incolor… *Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.
Texto originalmente publicado em Revista Fina