Maria Paula Curto *

Eu não deveria achar normal chegar aos 55 anos e nunca ter sido atendida por um médico ou médica negra. Nem dentista. E olha que eu já passei por diversas especialidades. Pediatras, ginecologistas, neurologistas, endocrinologistas, oftalmologistas, otorrinolaringologistas e nada. Todos brancos. Ou, no máximo, orientais. Pretos ou pardos? Jamais

Estava eu, no início desse ano, lendo o Pequeno Manual Antirracista, da Djamila Ribeiro, quando uma amiga perguntou: “mas ainda precisa? Será que a sociedade já não percebeu que não podemos ser racistas? Que isso não faz nenhum sentido?” Pois é… Infelizmente, parece que não. Ainda temos um longo caminho a percorrer até chegar o momento em que a humanidade seja tratada de forma respeitosamente igualitária. De fato. Independentemente de etnia – afinal, somos todos da mesma raça: raça humana, certo? – gênero, religião, orientação sexual, idade, tamanho, peso e tantas outras coisas que deveriam nos fazer únicos, não menores ou menos relevantes.

Eu queria poder passear pelos shoppings centers elegantes de São Paulo, sem precisar me preocupar com os olhares das vendedoras ao ver minhas filhas, pretas, entrando, sorridentes e falantes, nas lojas de marca. Olhares de um desprezo profundo, quase nojo, daqueles que a gente lança para baratas que cruzam as calçadas no verão. Olhares que se transformam em um sorriso sem graça, ao me ver chegar, logo atrás, com minha branquitude chancelando um respeito que deveria estar lá, de início.

E por que não é estranho que os atuais sejam ocupados em sua quase totalidade por brancos? Aliás, por homens brancos? Já se deu conta disso: de por que a gente não estranha? Por que a gente acha essa presença branca tão normal? Foto: Rede Adventista/Reprodução.

Eu queria ver meus vizinhos de prédio entrando no elevador comigo e minha filha preta, bem preta – na escala colorista do nosso racismo estrutural, ela estaria classificada como bem escura, próxima de um chocolate 75%, ou seja, bastante amargo, mas nem tanto quanto os sapos que ela tem que engolir diariamente… – e  não se colocando perto da porta, correndo até risco de ter parte das nádegas arrancadas, para evitar a possibilidade de encostar, mesmo que milimetricamente, no meu pedaço negro de vida, que está ali ao meu lado.

Eu queria trabalhar em uma empresa efetivamente inclusiva e que tivesse em seu quadro de colaboradores uma maioria negra. Mas que essa maioria não estivesse apenas no chão de fábrica, operando máquinas, limpando esteiras, alimentando caldeiras, nem nos campos e lavouras, plantando ou colhendo cana, eucalipto, ou grãos, nem nos armazéns, conduzindo empilhadeiras ou ainda carregando, nas costas, sacos de 50 kg de açúcar, nem trabalhando na copa ou na faxina, ou em call centers, oferecendo produtos os quais eles mesmos não podem comprar. Eu queria ver uma maioria negra como Farialimers, de ternos ou tailleurs de fino corte, sapatos ou scarpins de couro legítimo, sentados nas suas cadeiras giratórias de gestão, observando gráficos em seus laptops de último tipo, determinando as diretrizes estratégicas da companhia e da alta liderança. Ou melhor, o meu sonho é ver um Comitê Executivo ou um Conselho de Administração, formado apenas por pessoas pretas, deliberando sobre os rumos do mercado ou da nação. Seria utópico? Revolucionário? Estranho? E por que não é estranho que os atuais sejam ocupados em sua quase totalidade por brancos? Aliás, por homens brancos? Já se deu conta disso: de por que a gente não estranha? Por que a gente acha essa presença branca tão normal?

Eu não deveria achar normal chegar aos 55 anos e nunca ter sido atendida por um médico ou médica negra. Nem dentista. E olha que eu já passei por diversas especialidades. Pediatras, ginecologistas, neurologistas, endocrinologistas, oftalmologistas, otorrinolaringologistas e nada. Todos brancos. Ou, no máximo, orientais. Pretos ou pardos? Jamais. Num país com uma população majoritariamente preta ou parda (56,2%, segundo dados mais recentes do IBGE), isso deveria chamar a nossa atenção. Não deveria? Por que nos mantemos calados, resignados, desatentos?

Por isso – e por muito mais, que não consegui mencionar aqui senão seriam páginas e páginas de texto – que o dia da Consciência Negra ainda é necessário. E que é preciso ler Djamila. Pois não ser racista não é mais suficiente. É preciso ser antirracista. Foto: Divulgação/Cia. das Letras

Eu também não deveria achar normal passear no litoral da Bahia – que tem uma esmagadora maioria de pretos e pardos, em torno de 81% –  e perceber que, no barzinho da praia, não havia nenhum cliente preto – eu disse nenhum – a não ser as minhas duas filhas. Mas eles estavam presentes sim, como garçons, cantores, vendedores de colares e brincos de miçangas, varrendo e limpando as barracas. Somente eu parecia incomodada. Para os demais frequentadores do bar, ou do restaurante, ou mesmo do hotel, tudo estava completamente normal. A brancura da clientela faz parte da aquarela esperada na nossa visão colonialista de mundo… Por isso – e por muito mais, que não consegui mencionar aqui senão seriam páginas e páginas de texto – que o dia da Consciência Negra ainda é necessário. E que é preciso ler Djamila. Pois não ser racista não é mais suficiente. É preciso ser antirracista. É preciso enxergar as diferenças e se incomodar com elas. O mundo não pode continuar a ser injustamente monocromático nos seus privilégios. É preciso lembrar que 134 anos não foram suficientes para nos libertar. E que a gente não precise de mais 100 anos para quebrar as algemas da nossa consciência e permitir que o mundo seja igualitariamente policromático, como deveria

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP