Não, eu não odeio eles. Mas não gosto nadinha. E olha que eu me esforço, falo meu good morning, good evening e nada
Maria Paula Curto*

São 6:30 da tarde, saio correndo para pegar logo o metrô, para ver se chego a tempo de ligar pra casa. Esse fuso ainda me mata. Nossa, já está apinhado de gente! Tem um lourão de uns 2 m de altura empurrando todo mundo. Credo, não dá para perceber que dois corpos ainda não conseguem ocupar o mesmo lugar no espaço? Gente branca é mesmo folgada. Só porque parece ariano puro fica se achando, querendo passar por cima dos cucarachos. E ainda fazem cara de nojo. Olha, sinceramente, às vezes entendo os homens-bomba. Dá vontade mesmo de ligar um botão e explodir a porra toda. Mas o pior é que não vai adiantar nada. Posso até explodir todo branquelo arrogante desse trem, que logo, logo aparecem mais 500 mil do mesmo jeito. De nariz empinado, se achando a última bolacha do pacote. Como se do fiofó deles não saísse merda, mas buquê de flores. Os bonitões. Quem disse que esse tipinho à lá bicho de goiaba é bonito? Olha lá as pernas daquele dali. Parecem duas lombrigas. E qualquer raiozinho de sol provocam manchas como queimaduras de segundo grau. Muito feio. Ei, não aperta não camarada, se eu der mais um passo aqui vou cair no tal do “mind the gap”. Abriu a porta. Finalmente. Nossa, parece o estouro da boiada. Lá vem a velhinha dando bolsada. Calma aí, minha senhora. Vai caber todo mundo sim. Yes, my darling. Só não vem dando com essa bolsa cheirando a naftalina na minha cara não. Pera lá. Entrei, ufa. Achei que não ia sobreviver. Consegui. E nem uso Rexona. O negócio tá tão complicado que eu nem preciso segurar o ferro. Entalei. Vou é ter que combinar com o cara aqui do lado para a gente respirar encadeado: enquanto eu inspiro, ele expira e vice-versa, senão, não vai rolar. Povinho mais mal-educado. Tem gente que eu encontro todo dia por aqui e nem me cumprimenta. Nem com aquela levantadinha de sobrancelha, sabe? Finge que nunca me viu mais gordo. Mesmo com a comida horrorosa que tem nessa terra, como tem gordinho por aqui. Se fosse lá na minha terra, que tem aquela comida boa, de sustança, com torresminho e tudo – ui, me aguei aqui – eu ia entender. Mas com torta de rim? O que será que passa na cabeça de um ser humano para achar que torta de rim é quitute. Tem em tudo que é birosca. Deus que me perdoe! Olha, se não fosse para ganhar um tostão bom e ajudar a família, eu não tava aqui nem ferrando. Mas me disseram que bom pedreiro tinha muito trabalho e que o din-din era bom. Então, lá vim euzinho parar aqui. E lá se vão alguns anos. Até que estou conseguindo juntar alguma coisinha, mas olha, não é mole não. Não sei o que é pior: a comida, esse tempo que só chove e deixa tudo com um cheirinho de mofo, ou essas caras entojadas. Sei sim, são as caras. Certeza. Cara de quem come farinha e arrota filé. Odeio esse povo. Do fundo do coração. Ai, que feio, né? Deus vai me castigar. Não, eu não odeio eles. Mas não gosto nadinha. E olha que eu me esforço, falo meu good morning, good evening e nada. Me sinto o homem invisível. Eles só me enxergam quando faço alguma besteira ou entro em alguma loja. Lá vem o segurança me cercar. Claro, eu tenho cara de ladrão sem vergonha, né? Vão todos para a puta que os pariu!! Estou aqui trabalhando feito camelo corno, comendo o pão que o diabo amassou com o rabo, fazendo todo tipo de serviço que esses nojentinhos não querem fazer, mas que precisam, e muito, e eles me tratam assim. Sem nem me enxergar. Olha, tô cansando, viu? Ninguém merece ser tratado desse jeito. Na minha terra, eu sempre fui respeitado. Tenho até o segundo grau! Ensino médio que chama hoje, né? Sei lá, tô todo perdido nesse negócio de estudo. Aqui nem consegui pegar num livro. Também, chego em casa, se é que se pode chamar aquilo de casa, só o pó da rabiola. Trabalho quase todo santo dia, incluindo sábados e às vezes, até domingo, para dar uma força pra galera que está chegando por aqui. Não vou deixar companheiro na mão, né? Eu bem sei como foi no começo. Difícil para um caraleo. Nossa, ando tão desbocado. Acho que é desgosto. E cansaço. E pensar que eu fugi lá do Brasil para não ter que trabalhar que nem escravo. Mal sabia eu. Aqui é escravo também, só que falando em outra língua. Grande bosta. Faço conta todo dia para ver se já dá para voltar. E ainda falta muito. Falta muito para juntar dinheiro e comprar uma casinha pra dona Eunice. A coitada que trabalhou feito uma condenada para colocar comida na minha boca e de mais 5 irmãos. Fora os agregados. Porque tia Eulália só ficava se encostando. O pai sumiu no mundo. Se enrabichou com uma novinha e pernas pra que te quero. Deixando tudo pra trás. Nem um alô, uma cartinha, nada. Safado! Se um dia eu encontrasse ele nesse mundão de meu Deus, ele ia ver só. Mas o lá de cima não quer que eu faça uma besteira – mais uma, né? – e jogue minha vida no ralo. Por isso ele não me aparece pela frente. Mas o que é dele está guardado. Nunca precisei dele mesmo. Não vai ser agora. Fico com pena da Nicinha, coitada, com aquela barriga no fogão e cabeça na lua esperando o amor da vida que nunca mais deu as caras. Se ela, pelo menos, não gostasse do salafrário. Mas ela amava, e muito. E tinha a alma tão boa que nunca falou mal do infeliz. Nunca. Até arranjava desculpa para o sumiço dele. Só ela mesmo. O banquinho dela no céu está nomeado e lustrado, brilhando que nem estrela! Tenho certeza. O meu não. Vou penar no purgatório e nem sei se vou conseguiu subir. Se for por quantidade de trabalho e suor, sim, tô garantido, mas se levar em conta pensamento e intenção, lascou! Já tô no caldeirão. Ardendo junto com o demo. Também, vem viver minha vida e não ter pensamento ruim, vem? Quero ver quem pode. Esse povo só não cospe na minha cara porque não vai gastar saliva com preto miserável. Não é mole não. Tá chegando minha estação. Às vezes eu tento apelar pro santo, mas nem São Judas, o tal das causas impossíveis, consegue me atender. Também faço umas oferendas para meu Ogum, pedindo proteção, mas acho que ele não quer cruzar o Atlântico não. As lembranças dessa travessia não são das melhores. Vou ficar perto da porta. E o pior é que a gente continua cruzando esse marzão de meu Deus e a ser mal tratado. No sul ou no norte, com açoite ou escárnio, vida de nego é difícil. Consegui sair desse aperto. E a porra da escada rolante continua quebrada. Depois, falam que aqui é primeiro mundo. Só se for lá pras bandas dos bons de boca. Pro povão, toma de degrau. Ninguém merece. E esse metrô parece enterrado no buraco do demo. Nunca vi tão fundo. Aff. Tô louquinho para tomar um banho. Vou esfregar bem esfregadinho para ver se sai essa inhaca. O problema é que por mais que eu limpe, esfregue, esfole até rasgar, essa pele continua escura. E a História só muda no papel em branco…

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP