O garoto curvou-se ao pai e à irmã: “Isto não aconteceria em outro país, é típico da Suíça… por que não deixaram o cara em paz?

Gustavo Nagib*

Na plataforma, já havia uma sensação meio estranha no ar, mas não dei bola, a espera do trem é sempre meio esquisita: pessoas aleatórias, algumas sentadas sobre suas malas, outras fumando ou comendo, famílias com crianças chorando, sorvete derretendo, nariz escorrendo, um aturdido a passos tortos, uma galera hipnotizada no celular e alguém um pouco mais interessante onde nossos olhos estacionam.

O trem chegou no horário. Montei. Lugar marcado. Procurei: o cara me vendeu justamente no meio do vagão, onde dois pares de poltronas ficam frente a frente com uma mesa as separando. Me deparei com um garoto com uma argola na orelha e garrafas de água debaixo do sovaco, sua irmã com uma sacola cheia de croissant e chocolate, e o pai simpático, que fisicamente não se parecia com nenhum dos dois. Observei o garoto, depois o pai… seria aquele o futuro do filho? Ocuparam os assentos do outro lado do corredor e me deixaram ali junto a três poltronas livres. O rapaz fazia ironia: “Vamos praticar a redução da jornada de trabalho pelas próximas três semanas”.

Na sequência, entrou um moço nitidamente embriagado. Ele estava sorridente. Se sentou à minha frente, me deu uma piscadela e imediatamente caiu no sono. Meia hora depois, o trem fez sua primeira parada, ainda na Suíça romanda. Entrou uma italiana brava e seu esposo obediente. Eles tinham lugares separados. Ela logo despachou o marido e expulsou a família, cujo pai ocupava a sua poltrona. Os três vieram se sentar ao meu lado e, por sua vez, expulsaram o moribundo para a poltrona detrás, que ainda estava vaga. A italiana continuava a resmungar: “Eu vou sentar na 113B, se tiver controle, eu quero estar no meu lugar!”.

A paisagem de um ambiente em movimento: o que permace depois que descemos?. Foto: Reprodução/Meridianos 360º

“Controle!”, anunciou a jovem funcionária da companhia ferroviária. Antes de chegar em nós, tentou reanimar o ébrio sonolento. Se dedicou a ele por uns 10 minutos: “Senhor, senhor! O senhor está bem? Responda senhor! Senhor, a passagem, senhor! Senhor, o senhor se sente bem? Senhor, está tudo bem? Senhor, por favor, me responda alguma coisa! Senhor?”. Não saberia dizer se ele fingia muito bem, ou se realmente não estava em condições. Ela enfim checou nossos bilhetes. Logo em seguida, voltou com seu colega. Os dois juntos, em coro: “Senhor, o senhor está bem? Em qual cidade o senhor vai descer? Senhor, por favor, responda se está bem!”. Desistiram depois de mais outros dez minutos de tentativa frustrada.

Na última parada antes de cruzar a fronteira com a Itália, na Suíça alemã, dois guardas enormes entraram e, mais uma vez, tentaram: “Senhor? O senhor está bem?”. Nada. Então, abraçaram e ergueram o coitado e o carregaram para fora do trem. Foi dado o sinal sonoro, as portas se fecharam e entramos em território italiano. O garoto curvou-se ao pai e à irmã: “Isto não aconteceria em outro país, é típico da Suíça… por que não deixaram o cara em paz?”.

Primeira cidade italiana. Dois guardas entram e gritam: “Controle de passaporte”. Até chegarem na metade do vagão, muita mala foi vasculhada. Evidentemente, também decidiram encrencar conosco. Abriram minha frasqueira. Percorreram do xampu ao cotonete. Depois de muitas perguntas e roupas íntimas espalhadas sobre aquela mesa compartilhada, os guardas nos deixaram para lá e avançaram enfáticos sobre o próximo grupo de turistas. Enquanto isso, novos controladores de passagem checavam novamente os bilhetes. Pegaram dois mochileiros que forjavam uma inocência juvenil. “Cadê as passagens?”. Eles não respondiam. “Me acompanhem, por favor”. Parece que terminaram a viagem em pé e com uma multa em mãos. E a família à frente viajava com um cachorro enorme, que não conseguia encontrar um bom lugar entre as poltronas, as malas e o corredor estreito. De tempos em tempos, o cão encostava o nariz gelado no bíceps do garoto à minha frente, que tentava fingir não estar desconfortável com a situação. Eu sorria, meio nervoso, meio simpático.

Ao chegar em Milão, ainda confuso com o excesso de informação, vi que o exército fazia uma blitz na estação central. Três garotas estavam apresentando os passaportes. Era melhor passar rápido. Ao pisar no asfalto, senti os 40 graus. A Via Vittor Pisani parecia eterna. Miragem: uma enorme piscina de Aperol Spritz com muito gelo me chamava na Piazza della Repubblica. Cheguei ao restaurante com a camiseta inteiramente molhada de suor. O cachorro da mesa vizinha me olhava com piedade. “Vorrei la cotoletta, per favore”. O cão levantou as orelhas como se tivesse entendido o pedido. Mal chegou o bifão, os dois do lado arregalaram os olhos e já puxaram papo: “La cotoletta più grande di Milano!”. Finalmente na Itália, onde nunca se come sozinho!

*É geógrafo, Doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e poeta. Autor das obras “Amar: verbo indefinido” (Mini, 2015) e “Agricultura Urbana como Ativismo na Cidade de São Paulo” (Annablume, 2018)