15/05/2010
por José Eduardo Ribeiro Nascimento
– Toque para o aeroporto, e pode pisar fundo.
– Nesse trânsito o senhor vai se decepcionar – disse o homem responsável pelo volante, dia de hoje o centro fica uma loucura. Se você pegasse qualquer um, eles iriam pelo caminho normal, pois demora mais e sai mais caro; mas eu vou pelo bairro industrial, economizando tempo para o senhor. Esse calor está de lascar, não acha? Negócios?
O motorista dobrava um lenço xadrez lentamente, enquanto ajeitava os óculos. Aquele ritual irritava bastante o passageiro. Já estava a ponto de procurar outro táxi, contudo a educação que recebeu de seu pai o impediu, mas não sem um pouco de tristeza.
– O senhor vai ligar o carro, ou vai preferir ficar aqui conversando?
– Na verdade “preferia” ficar aqui, mas se chegasse em casa sem o “pão nosso de cada dia” a patroa não ficaria muito contente. Por isso não se preocupe, o senhor chegará, e não o privarei de um percurso agradável, daqui para o aeroporto. Apesar de que acho que, se dispuséssemos de tempo para conversar, teríamos diálogos bem interessantes; o senhor me parece um rapaz inteligente, e…
– Olhe, vamos perder o sinal…
– Mãos a obra! Quando um sinal desse fecha é quase cinco minutos para abrir de novo. Aperte os cintos!
O sinal fechou.
– Que pena…
– Que pena mesmo…
– O senhor é flamenguista? Meu Deus que jogo, hein? O Corinthians é uma vergonha, time ruim da zorra, num sei como uns caras daqueles ganham tanto dinheiro pra fazer uma miséria daquelas e…
– Eu sou corintiano.
– Há! Há! Meus pêsames. Num tem nada pior do que ver o time perder tanto, e olhe que o flamengo passou por uma fasezinha terrível uns tempos atrás. Eu não me orgulho muito disso, mas hoje é um dos melhores, isso até o senhor tem que reconhecer.
– O senhor pode apenas dirigir?
– Nada de futebol. Ok, entendi. É doloroso para o senhor lembrar, ainda está muito recente, não tocarei mais no assunto.
– ….
– Meu filho vai sair da cadeia amanhã.
– Como disse?
– Meu filho. Ele vai sair da cadeia amanhã. A patroa está numa alegria só, afinal foram 5 anos, e…
– Seu filho estava na cadeia?
– Sim, pegou cinco anos. Foi denunciado por bater na mulher. Um absurdo, só no Brasil isso acontece, e…
– Pois é, como um cara tem a coragem de b…
– … como é que a justiça pode se meter na intimidade de um casal? Eles nem sabem o que aconteceu de verdade entre eles. Pois vou lhe dar um conselho, e de graça: do dia que começar a conhecer sua futura mulher, bote ela na linha, pois são os diabo pra criar picuinhas, e deixam sua vida um inferno. Comigo foi assim, de cedo eu não soube adestrar minha “veia”, e aí…
– O senhor acha que seu filho estava certo?
– Claro! Aquela peste da mulher dele merecia umas pauladas. Fui eu quem mandei ele dar uns corretivos nela. Por quê? O senhor tem algo contra? O senhor nem sabe da história e já ta julgando meu menino. Olhe aqui…
– Calma seu Zé, não estou julgando ninguém, só estou completando a conversa…
– Vamos mudar de assunto, num lhe interessa saber nada do meu filho, você não fica feliz por minha família, eu acho até que você é desses “cara” fresco que tão virando moda por aí… se for isso é melhor sair logo. Num gosta de falar de futebol, fica magoadinho por causa do time, torce pro Corinthians, fica defendendo mulher ruim, sei não viu.
– Olhe o aeroporto, até que enfim.
– Eu que o diga, o senhor é muito desagradável, se soubesse que você era um corintianozinho safado assim, tinha ficado lá mesmo no centro. Deus que me livre.
O rapaz saiu do táxi, pagou sua viagem, e decidiu que nunca mais pegaria um táxi de novo.
