Ela simplesmente não quis me responder… Bem, após alguns minutos, ela me cutuca o ombro e eu pergunto: A senhora quer mudar o itinerário? Acrescentar uma parada ou algo assim?

Maria Paula Curto*

Uso muito aplicativo de taxi como Uber ou 99. Sei que tem gente que não curte, pois acha que os motoristas são explorados pelas empresas – o que tem lá seu fundo de verdade – ou tem medo de ser assaltado, estuprado, sequestrado, ou algo do tipo (como se simplesmente andar na rua em SP já não fosse tão arriscado quanto…), mas acho uma ótima alternativa, seja por conta dos preços exorbitantes de estacionamento cobrados na cidade, seja em momentos em que quero tomar minhas caipirinhas, meu vinho, minhas cervejas, sem me preocupar com a volta para casa. E, tirando alguns momentos de sufoco, em que a espera passou de uma hora, em que os preços no modelo dinâmico quintuplicaram de valor ou que fui cancelada algumas vezes seguidas, costuma dar (muito) certo.

Fora o ganho de produtividade, já que me sobra tempo – que eu não estou ao volante, preocupada com as fechadas dos carros alheios – para checar minhas mensagens, responder e-mails ou até mesmo ler as últimas páginas daquele livro sobre o qual vai ter um clube de leitura no dia seguinte. Mas, o que eu prefiro fazer na maioria das vezes em que entro no carro é conversar com o motorista. Adoro um bom papo. Segundo minhas filhas, falo mais que a velha do leite kkkk. E eles sempre têm um manancial de histórias, das mais engraçadas às mais comoventes. Então, além de um ótimo meio de locomoção, o Uber é meu contador de histórias ambulante, material rico para crônicas futuras e para me mostrar que a vida é muito mais interessante do que possa imaginar a minha vã filosofia..

Nessa semana, fui ao dentista e resolvi chamar um aplicativo. Estava atrasada, o primeiro me cancelou, mas o segundo, um senhor bem atencioso, chegou com um sorriso na boca e um olhar que escondia uma mágoa recente. Percebi, de cara, que “algo de errado não estava certo”. E após os cumprimentos iniciais, resolvi engatar uma conversa para ver se minha percepção estava equivocada ou não. Não precisei de 5 minutos para que ele me contasse uma história estapafúrdia, para dizer o mínimo, ocorrida na manhã daquele dia.

Não precisei de 5 minutos para que ele me contasse uma história estapafúrdia, para dizer o mínimo, ocorrida na manhã daquele dia. Foto: Reprodução/ Uber

Posso contar um caso para a senhora

Claro, fique à vontade. Adoro “causos”.

A senhora acredita que eu fui chamado de velho gagá hoje cedo?

Oi? Como assim? Por outro motorista? Ele estava estressado?

Não, por uma cliente. Eu fui buscá-la e, antes de ela entrar no veículo, eu disse: Bom dia senhora! Ela não me respondeu. Eu achei que ela não tinha ouvido, por conta do barulho da rua e repeti para ela, já dentro do carro: Bom dia, senhora! Ela continuou calada.

Mas ela não estava no celular? Com fone de ouvido e o senhor não percebeu?

Não, não tinha fone de ouvido. Ela simplesmente não quis me responder… Bem, após alguns minutos, ela me cutuca o ombro e eu pergunto: A senhora quer mudar o itinerário? Acrescentar uma parada ou algo assim? E ela me responde: “Não. Eu só quero lhe dizer que NÃO SOU SENHORA! E que você é um velho gagá!” “Acho que eu não entendi direito…” “ O senhor entendeu muito bem sim. Não se faça de desentendido.” Eu não aguentei e falei: “a senhora está vendo a maçaneta preta aí ao seu lado? Pode usar e sair do veículo, pois eu não vou lhe levar ao seu destino!” “Ah, não? Pois saiba que eu vou ligar no seu aplicativo e acabar com você!!! Vou dizer inclusive que fui assediada!!! Pode me levar ao meu destino final sim!!” “Se a senhora quiser, pode ligar agora, pois toda a nossa conversa está sendo filmada e gravada, ok?” “ E onde está essa câmera que eu não estou vendo?” “Não lhe interessa. Vai ligar ou vai sair?” E ela, finalmente, saiu do carro.

– Meu Deus, não acredito numa coisa dessas…

– Nem eu. E digo mais: não havia nenhuma câmera. Foi a solução que eu encontrei para sair daquela situação. A senhora imaginou uma coisa dessas?

– Jamais. E acho que o senhor foi muito equilibrado e calmo. Eu não teria sido capaz…

– As pessoas desaprenderam expressões simples como bom dia, boa tarde, por favor, obrigada, com licença. Elas acham que só porque estão pagando, elas podem nos destratar.

– Realmente, muito triste. Peço desculpas por ela e só posso desejar que o senhor tenha uma ótima semana, com pessoas que lhe tratem com educação e com respeito. Respeito que é bom e todo mundo gosta.

– Muito obrigado, senhora. Inclusive por me ouvir.

– Imagine. E que existam mais pessoas como o senhor. Até logo!

Cheguei no dentista com um gosto amargo na boca. Aquele senhor não merecia aquele tipo de tratamento. Na verdade, quem merece? Fiquei pensando o que passa na cabeça das pessoas ao achar que o fato de estar pagando (por um serviço prestado, diga-se de passagem) permite que ela trate o outro com esse desprezo, essa grosseria. Onde será que erramos? Que espécie de sociedade nos tornamos? 

O motorista do Uber, o porteiro do prédio, o lixeiro, o morador de rua não é menos humano do que eu ou você. Nas veias e artérias de todos, corre sangue. Vermelho. Alguns com mais ou menos colesterol, mais ou menos glicose, hemácias, creatinina, mas sangue. Nossos rins, sejam eles moradores dos Jardins ou da Cracolândia, acumulam urina. Nossos intestinos, fezes. Mal cheirosas, quer você tenha uma prateleira repleta de Chanel, Yves Saint Laurent, Armani ou não. Aliás, lamento informar, mas, mesmo que você tenha milhões aplicados em bolsa, multimercados, renda fixa ou variável, seu pum vai cheirar a bosta, igualzinho ao meu, não tem jeito. Então, por que essa empáfia, essa arrogância? O que a gente ganha com isso?

Ganhar eu não sei, mas certamente a gente anda perdendo muito. E ficando cada vez mais pobre. Pobre de histórias. De memórias. Pobre de vida…

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP