Chegou ao restaurante e antes mesmo de atravessar o corredor que levava à mesa do cantinho, especialmente escolhida para esse reencontro, já foi recebida com um forte abraço, um cheirinho no cangote – tem coisa mais gostosa?
Maria Paula Curto *
Naquele dia, Maria acordou animada. Estava fazendo um dia lindo – coisa rara na pauliceia desvairada – e ela iria encontrar com o seu grande amor que não via há algumas semanas, por conta da quarentena da Covid-19. Maldita ômicron. Bem, ela estava vacinada, os sintomas foram leves, mas não ter contato social com ninguém não é das experiências mais agradáveis da vida. Ansiedade era seu nome. O lugar escolhido para esse reencontro havia sido um charmoso bistrô nos Jardins, que tinha uma comidinha deliciosa e não ficava muito cheio. Afinal, um pouco de privacidade, ainda mais em tempos pandêmicos, é muito bem-vinda. E a saudade pedia um certo aconchego.
Escolheu um vestido soltinho, de algodão, bem leve, perfeito para o calor. Vermelho cereja, que realçava seu tom de pele. Pegou uma sandália aberta, que tinha um certo saltinho, o suficiente para tornar a perna mais esguia sem ficar desconfortável, sabe? Arrumou o cabelo num coque desconstruído, deixando um pedaço de pescoço à mostra. Nesse mesmo pescoço, borrifou algumas gotas de Chanel Eau fraîche. Era seu preferido. Um pouco de máscara para cílios, um gloss para dar um “up” e estava pronta. Fazia tempo que não se sentia tão bem. Pegou a bolsa de couro cru, na qual enfiou a carteira, o celular, máscaras extras e um frasco de álcool em gel. O famoso kit pandemia. Mesmo estando “repleta de anticorpos”, não valia a pena arriscar. Não mesmo. Duas semanas de isolamento total foram mais do que suficientes. Seu desejo era de abraço. De proximidade. De aperto.

Ao sair do prédio para pegar o carro do aplicativo, até o seu Carlos, porteiro de longa data, elogiou. Abriu a porta do automóvel ainda com um sorriso no rosto. Notou um certo desejo no olhar do motorista. Que seguiu o caminho sem qualquer piadinha ou palavra de mau gosto. Um verdadeiro cavalheiro. Maria sabia como ninguém ser atraente sem qualquer vestígio de vulgaridade. Talento cada vez mais raro.
O pulso estava um pouquinho acelerado. Fruto de uma coisa que os alemães chamam de Vorfreude: felicidade antecipada. Os preparativos para uma festa são sempre mais importantes – e gostosos – do que a festa em si. E Maria era, naquele momento, o retrato da mais pura alegria.
Chegou ao restaurante e antes mesmo de atravessar o corredor que levava à mesa do cantinho, especialmente escolhida para esse reencontro, já foi recebida com um forte abraço, um cheirinho no cangote – tem coisa mais gostosa? – e um simples selinho. Apesar da vontade enorme de grudar naquela boca como se não houvesse amanhã, restaurante não é lugar para beijos de língua cinematográficos, certo? Só o toque, o cheiro, o arrepio eram suficientes.

Decidiram que começariam com um leve petisco e um espumante. Precisavam celebrar. Um encontro sem telas nem microfones nem Wi-fi. Finalmente olho no olho. Que delícia! Chamaram o garçom. Ele estava ocupado com outra mesa, mas sinalizou que já vinha.
5 minutos. As mãos não se desgrudavam. Um leve zum zum zum começou a surgir no tranquilo bistrô.
10 minutos. Começaram a falar ao mesmo tempo, tropeçando nas palavras que não eram suficientes para definir aquela saudade. O zumbido havia crescido e começava a incomodar.
15 minutos. Trocavam cochichos ao pé do ouvido. Nada do garçom. O ruído cresceu e parecia produzir faísca. Queimava a pele. Mas não conseguia atravessar a superfície.
20 minutos. O garçom não veio. No lugar dele, apareceu o maître dizendo: “infelizmente, não temos o espumante que vocês pediram. Nem a entrada. Será que vocês não gostariam de almoçar em outro lugar?” Maria estranhou, mas insistiu: “tudo bem se não tem o nosso espumante. Você pode indicar um substituto?” Ao que o maître resolveu ser mais explícito e objetivo: “esse é um restaurante familiar. Pessoas como vocês duas não são bem-vindas aqui.”
De repente, tudo ficou claro. O restaurante estava em polvorosa. O barulho já era tão ensurdecedor que as louças começaram a trincar. Os talheres derretiam frente à acidez dos comentários. As taças craquelaram. Das frestas das janelas saíram baratas. De fendas do assoalho brotavam ervas daninhas. Ratos passeavam entre as mesas. E sentavam nas cadeiras. Nojentos. Desprezíveis. Asquerosamente triunfantes.

Maria se levantou, abraçou Joana e, juntas, caminharam calmamente em direção à saída. Sem dizer uma palavra. Os ratos nunca entenderiam. Elas foram buscar um lugar em que Maria possa não amar João. Que ama Pedro. Que ama Clara. Que ama Silvia. Que ama a todos. E a cada um. Um lugar em que se possa, simplesmente, amar.

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.