Roberto
luto, saudade, desigualdade social, amizade, humanidade
imagem/Ligia Zilbersztejn Casal improvável, a dama e o vagabundo – não que eu seja alguma lady, que fique bem claro isso – sem dividir a tigela de macarrão, mas um emaranhado de experiências compartilhadas na essência Maria Paula Curto Até hoje, quando eu desço o elevador para levar a Hannah para passear, eu olho para a calçada da igreja da Cruz Torta, esperando ver você ali, orientando os motoristas nas vagas estreitas e tentando tirar algum para o almoço ou a janta do dia. Ou ainda para descolar aquele cigarrinho que faz mal à saúde sim, mas ajuda um pouco a acalmar os nervos e passar o dia. Nesse estranho equilíbrio, você escolhe a fuga. Quem não? Mas você não está mais lá. E eu custo a me convencer disso. Custo a entender que eu não vou mais ouvir você me perguntando se eu tinha arranjado um bofe. E rir com você da minha eterna resposta: infelizmente nada. Zero, bola, rosca. Imediatamente você tentava me consolar afirmando: “É, a coisa tá feia mesmo”. Mas logo na sequência você sempre acabava me contando um caso novo, um certo olhar do outro lado da calçada, uma buzinada insistente do taxista local ou até um “amasso de responsa” – daqueles que a gente perde o fôlego ao sentir que existe algo além de pano e suor entre o teu corpo e o do outro – no muro do prédio novinho e chique do fim da rua. Mal sabia você que, ao tentar me mostrar que o mercado de bofes estava mesmo em crise, acabava por carimbar a minha total incompetência amorosa-sexual, pois pelo menos você sempre tinha alguma paquera e, para mim, não restava sequer um mísero assobio ou um “gostosa” sussurrado no ouvido por um machista de plantão. Também sinto falta do seu radinho de pilha e do dia em que dançamos bem no meio da Vupabussu ao som de Upside Down de Diana Ross, como se não houvesse amanhã. E há? E a cara das pessoas olhando torto para esse casal improvável, a dama e o vagabundo – não que eu seja alguma lady, que fique bem claro isso – sem dividir a tigela de macarrão, mas um emaranhado de experiências compartilhadas na essência. A dor e o odor valem para todos. Às vezes, você vinha cheirando a cachaça. Mas quem não se afogaria num copo para esquecer o estômago vazio? Cachaça mata? Fome também. E dói, enquanto o álcool anestesia. Quem sou eu para julgar se também procuro a minha cachaça ou anestesia nas infinitas listas de To Dos das salas com ar-condicionado do escritório ou no tal home office. Cada um com seu vício. Ninguém é melhor do que ninguém. Talvez mais refinado. Ou falso. Igualmente viciado e covarde. Eita vidinha difícil de encarar careta, não? Outras vezes você estava cheirando a mijo. Sim, mijo. Faz parte. É humano. Apesar de a gente tentar esquecer. Também não dava para lavar roupa toda semana, né? Não tinha máquina (nem tanquinho). Ou ainda vinha com um pouquinho de cheiro de bosta. Mas ok, esses cheiros são fáceis de limpar. Saem com água e sabão. Simples assim. Já as manchas que eu carregava dos escritórios da Faria Lima não saem nem com água sanitária e cloro. Ficam grudadas naqueles restos de ética que nós pensamos ainda ter. Acho que o que eu sinto se chama saudade. Saudade do meu Genet tropical que escolheu as ruas uma vez que a concretude cinzenta das caixas que insistimos em chamar de casas não lhe bastava. Afinal, para que ter um único número se eu posso ter a avenida inteira? Adeus meu amigo. Me aguarde que um dia eu chego. E a gente vai poder dançar muito, num palco um pouquinho maior que a esquina da Vupabussu com a Costa Carvalho… Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP. Passa a escrever quinzenalmente, às quintas-feiras.
Texto originalmente publicado em Revista Fina