ilustração/Ligia Zilbersztejn O cachimbo trouxe um alívio tão grande, tão grande, que Luiz ganhou novo companheiro inseparável Maria Paula Curto * Era um dia como outro qualquer. Uma quarta-feira talvez, bem no meio de uma semana pesada, em que sua mãe, apesar da barriga enorme com a gravidez avançada, continuava pegando forte no batente. Gravidez não é doença, ela dizia, claro, pois cada centavo do que recebia como diarista fazia falta. Não no fim do mês. Mas na janta do fim do dia. Foi no meio dessa semana, no SUS de Realengo, que Luiz Carlos veio ao mundo. Magrinho, comprido, com uma boa garganta – berrava mais do que qualquer outro naquele hospital lotado do subúrbio do Rio. Cresceu aos trancos e barrancos, ficava na casa de uns e de outros, enquanto sua mãe continuava a batalha nossa de cada dia. Era muito agitado e vivia correndo, esbarrando no povo e gritando: “bibibi!!! sai da frente!!! Tô passando!” Um dia, no entanto, o ônibus não viu Luiz. E passou por cima da sua perna, que se desmanchou no asfalto da avenida Brasil. No aniversário de 7 anos, ganhou seu primeiro presente: um boné vermelho. Não tirava da cabeça. Era sua marca registrada. Aos 8, foi morar com um tio, pois sua mãe foi para o trabalho e não voltou mais. Disseram que foi bala perdida. Ele se perguntava porque uma bala perdida tinha que achar logo a cabeça da sua mãe. Era o boné. Vermelho. Luiz Carlos tinha certeza disso./Foto:repro.Toda matéria Aos 11, o boné já sem elástico e com um vermelho mais para um “rosa velho manchado”, só se mantinha na cabeça amparado na sua orelha esquerda. Todo torto. Mas Luiz Carlos não se apartava dele jamais. Achava que se uma bala aparecesse, ao ver o boné vermelho, ela ia desviar. Ele estaria salvo. Aos 12 arranjou trabalho com um cara da comunidade. Trabalho fácil. Era só empinar pipa quando os meganhas aparecessem. Logo ele que adorava pipa. No início, ele nem queria, pois todo mundo falava que aquele cara estava envolvido com coisa ruim. Mas nada podia ser pior que ouvir os berros do seu tio avisando que não podia sustentar malandro. Principalmente malandro dos outros. E ainda por cima aleijado. Isso quando ele não jogava a garrafa de pinga ou um prato ou o que estivesse na frente bem na direção dele. Nunca acertava. Era o boné. Vermelho. Luiz Carlos tinha certeza disso. Aos 13, quase 14, ele achou que poderia experimentar aquele cachimbo que circulava nas quebradas. Isso devia acalmar a raiva que ele sentia por dentro. De bater no tio. Bater só não. Às vezes, a vontade era de matar aquele velho bêbado. Só para não ouvir mais aquela voz. Não sentir mais o cheiro dele. Nem o áspero da barba na nuca… O cachimbo trouxe um alívio tão grande, tão grande, que Luiz ganhou novo companheiro inseparável. E mesmo depois de sua morte prematura aos 16, até hoje o povo jura continuar a ver aquele menino agitado, de uma perna só, com seu boné desbotado e torto e seu cachimbo na boca. *Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.