Maria Paula Curto* Andou sem rumo um bom tempo. Circulava pela cidade tentando esvaziar nos passos o desespero do corpo. Em vão. Ganhou calos, bolhas, sangue e a dor continuava. André Luiz de Souza Jr. nasceu na primeira semana de maio, com menos de 1 kg e com uma fome maior do que o mundo. Taurino que é, teimou em permanecer vivo, contra todas as estatísticas que apontavam para o oposto. Foi entubado, abandonado, operado, revirado, mas resolveu que nada disso seria barreira ou empecilho. Ele iria em frente. A vida não se mostrou fácil nem na largada. Foi encaminhado a um abrigo e cresceu sem conhecer seu histórico, apesar das várias manchetes que trazia estampadas na carne. Aos 7, foi adotado. Casal religioso, temente a Deus, mas que ofereceu a André uma “vida digna”. Dignidade essa que ele não enxergava no barraco em que vivia nem na caixa de engraxate que carregava no trem lotado. . Ele iria em frente. A vida não se mostrou fácil nem na largada. Foto: Reprodução, ONU Aos 18, ele resolveu seguir sua vida e buscar uma resposta para aquela agonia que roncava na sua barriga, que subia pela garganta e latejava na cabeça. Saber o que aconteceu antes de ele romper aquela bolsa e desaguar no mundo. Andou sem rumo um bom tempo. Circulava pela cidade tentando esvaziar nos passos o desespero do corpo. Em vão. Ganhou calos, bolhas, sangue e a dor continuava. Um dia, ao acaso, passou na frente de uma casa de portão azul. Era ali. Ele sabia. Entrou. A porta estava aberta. Reconheceu o corredor, apesar de menor do que lembrava. A senhora que sentava numa mesa descascada sorriu e perguntou o que ele desejava. Ah, se ela soubesse o quanto de coisa ele desejava… Saber se aqui é um abrigo. Hoje não mais. Que pena. Eu precisava tanto saber sobre mim. Sobre você? Você foi acolhido aqui? Sim, fui. E o rosto de André passou a brilhar com o resto da água que ele não conseguiu desaguar. Olha, eu não deveria, mas… Lá no quartinho do fundo, tem um monte de caixa guardada. Não está nada organizado, mas se você tiver paciência, talvez você encontre o que procura. Quer tentar? Só não posso te ajudar, pois tenho que ficar aqui na frente recepcionando as pessoas. Mas vai lá. Quem sabe hoje não é seu dia de sorte? André agradeceu e foi correndo para o tal quartinho. Uma verdadeira bagunça. Mas ele não ia sair dali sem encontrar algo. Alguma pista, por menor que fosse. E assim, armado de uma vontade quase ontológica, mergulhou naquela pilha de papel amarelo como quem busca o tesouro perdido. E talvez fosse mesmo um tesouro. Para ele. Depois de quase quatro horas debruçado naquele monte de papel, ele achou uma pasta. A data de nascimento coincidia com a sua. Mas estava difícil enxergar qualquer outra coisa. No meio dos papéis, uma grande mancha marrom. Café? Folheou aquela pasta espremendo a vista para tentar enxergar o fio de Ariadne. Só conseguiu entender palavras soltas. Desconhecido. Morta. Parto. Excesso. Hormônios. Ao levantar percebeu que algo caiu da pasta. Agachou e olhou. Uma foto. De um homem. Grávido. *Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP Publicado por André Vieira Jornalista gaiato e poeta-menor. Escrevo pequenas notas e algumas reportagens quando a missão vem à baila e engano — bem — na arte milenar do hai-cai fixo. Não gosto que cebolas toquem no purê de batatas. E sim, amigos, é bolacha e não bixxcoito. Ver todos os posts de André Vieira