Complicado, viu? Mas eu resolvi tentar. Fui na casa dela. Ela tinha um monte de gato! Gostei disso. Eles gostaram de mim.
Maria Paula Curto *
Já não me quiseram na largada. Eu forcei a barra. E nasci. Antes do tempo e sem muito espaço, com 765g. Pequena, né? Menor que um saco de feijão. Demorei um tempão no hospital. Não foi mole não ficar lá, naquela caixa esquisita, com um monte de tubo e fio amarrado. Teve uma vez que até me cortaram. Parece que eles precisavam cortar parte da minha barriga para a comida chegar mais rápido onde tinha que chegar. Doeu, viu? Eu lá, toda pequenininha e recortada. Sozinha.
Nascer é difícil.
Depois que saí do hospital, fui pra casa da minha avó. Era tudo muito amontoado de gente, sujinho, meio fedido, mas tinha um teto. O que não tinha muito era atenção. O povo de lá só ficava jogado pelos cantos, com cara de maluco e uns negócios estranhos de botar na boca. Não era comida não. Tinha um cheiro forte. Meu avô sempre dizia para eu me afastar. Comida eu tinha que arranjar na rua. Na lata de lixo (tem gente que joga metade de um sanduíche fora, acredita?) ou com seu Zé da pastelaria. Gostava muito dele, seu Zé. Ele me dava muito pastel gostoso. Quentinho. Pena que não era todo dia. Às vezes, eu conseguia pão. Comia no seco mesmo. Manteiga? Só em dia de festa. Eu comia na escola também. Não entendia nada que os professores falavam. Mas eu comia a merenda. Era um pouco sem tempero. Eu ia reclamar? Não. Pelo menos tinha arroz com feijão. Enchia o bucho. E repetia. Eu não sabia se de noite eu ia comer novamente. Melhor garantir, né?
Crescer é difícil.

Eu tinha o Fininho. Era um gato tão bonitinho. Mas o coitado era magrinho que só. Dava para sentir as costelinhas, sabe? Eu dava pelinha de frango para ele. Mas era pouquinho e ele não engordava. Nem eu. Um dia, minha avó estava bem brava e berrou comigo para eu jogar o gato na rua. Eu respondi que eu ia cuidar do Fininho. Ela nem quis saber. Meu deu um tapão e mandou eu botar ele na rua naquele dia. Que já não tinha comida pra gente. Como ela ia dar comida pro gato? Eu fui com ele no colo. Tentei deixar na rua. Não consegui. Entrei com ele de volta, escondido no casaco. De noite, eu fui dormir. Acordei com um grito, um grito tão forte que parecia de filme de terror. Levantei do sofá e olhei no canto da sala. O Fininho numa poça de sangue. Chorei muito. De dó. De raiva. De medo.
Sobreviver é difícil.
Todo dia eu ia para a escola. De uniforme e mochila. Um dia, apareceram duas mulheres, sérias, querendo falar comigo. Elas disseram que iam me levar para um lugar legal, chamado abrigo. Perguntei se tinha comida nesse tal de abrigo. Elas disseram que sim. “Você vai gostar de lá. Tem outras crianças para você brincar”. Eu não queria ir. Eu não conhecia ninguém. Quando cheguei, todo mundo me olhou. Com cara torta. Não gostei nadinha. Chorei a noite toda. Chorei a semana toda. Acabei ficando por lá. Depois de um tempo, comecei até a gostar. A gente fazia passeio, brincava. Era divertido. Mas eu tinha muita saudade do meu avô. Eles diziam que ele não podia me levar pra casa dele. Ele estava doente e sem emprego. Eu rezava todo dia pedindo a Deus para o meu avô ficar bom, arranjar um trabalho e me pegar de volta. Deus nunca me ouviu.
Acreditar é difícil.
Um dia, apareceu um casal no abrigo querendo me conhecer. Eles eram bem legais comigo. Me levaram para passear e comer hambúrguer. Eles tinham um cachorro. Eu gosto de cachorro. Mas prefiro gato. Deve ser por causa do Fininho. Eles falaram que, se eles me adotassem, eu ia visitar a Disney. Seria muito maravilhoso, né? Quando a mulher do Fórum perguntou se eu queria morar com eles, eu disse não. Ninguém entendeu. Acho que nem eu entendi. Eu só sabia que não queria ficar perto do homem. Ele não fez nada comigo. Juro, juradinho. Mas eu lembrei do meu padrasto. E essa lembrança não era nada boa.

Lembrar é difícil.
Depois desse casal, eu pedi para visitar meu avô. A mulher do Fórum não queria deixar, mas a tia do abrigo convenceu ela de que seria bom para mim. Eu fui. Com a tia Fe e o tio Jo. A casa estava muito suja. E tinha cheiro de xixi azedo. Tinha gente dormindo em um papelão no meio da sala. Nem acordaram quando eu cheguei. Olhei para o meu avô e não consegui ver direito a cara dele. Ficou tudo meio embaralhado. Tinha fumaça. Meu avô não olhou na minha cara. Acho que ele ficou com vergonha. Eu também. Pedi para sair de lá correndo. Chorei muito. Muito mesmo. O caminho todo. Cheguei e pedi para falar com a mulher do Fórum. “Tia, pode me botar de volta na fila de adoção. Agora, eu quero uma família. E eu quero muito.”
Decidir é difícil.
Foi então que apareceu uma mulher mais velha querendo me adotar. Ela era sozinha. Ufa, isso era bom. Não ia ter homem para me botar medo. Se você me perguntar, eu não sei se gostei dela logo de cara. Ela usava óculos e falava um monte de palavra que eu não conhecia. Ela falava um quilo e eu entendia uma grama. Complicado, viu? Mas eu resolvi tentar. Fui na casa dela. Ela tinha um monte de gato! Gostei disso. Eles gostaram de mim. Comecei a achar que podia ser legal. Teve amigo dela que eu fui com a cara. Outros não gostaram de mim. Me olhavam torto e diziam que eu não era grande coisa. Ou não diziam, mas eu percebia. Não sei que “grande coisa” eu deveria ser.
Encaixar é difícil.
Hoje essa mulher é minha mãe. Eu já consigo entender muita coisa do que ela diz. E também consigo perguntar a ela quando não entendo. Viver numa família com rotina não foi mole não. Só lembro da cara que ela fez quando eu disse para ela que eu não fazia ideia do que era segunda, terça, quarta, quinta… e que quando chegava no domingo, voltava para segunda. Não é muito louco isso? Esse tempo que fica voltando pro mesmo lugar? Ela achou que eu era louca. Fez um monte de exame na minha cabeça. Parece que sou normal. Se bem que eu não faço a menor ideia do que é ser normal. Não nesse mundo dela. Que ainda é diferente do meu mundo. Bemmm diferente. Mas tem muita coisa legal. Viajar de avião é legal. Comer sushi também. Eu ainda preciso do elastiquinho nos palitinhos, mas pelo menos, eu consigo comer, né? Acho que eu preciso de um monte de outros elastiquinhos para poder viver perto dela. Não sei se ela vai ter paciência comigo. Não sei se algum dia eu vou “desprecisar” desses elastiquinhos todos. Tem vezes que eu acho que vou chegar lá. Tem vezes que a coisa fica feia e eu penso em desistir. É muita coisa para mim, sabe? Não sei se vou dar conta. A minha mãe diz que sim. Que eu já dei conta. Que eu sou uma guerreira por já ter chegado até aqui. E que eu posso ir muito mais longe. Basta eu me amar.
Me amar não pode ser tão difícil assim. Será?

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.