Depois, essa minha família nada tradicional cresceu e passou a incorporar alguns gatos, que foram chegando de mansinho, felinamente, e conquistaram seu espaço de um jeito tão arrebatador.

Maria Paula Curto *

Nunca fui muito ligada a esse negócio de família. Achava, inclusive, aquela coisa de reunir a parentada no Natal, casamento e outras datas ditas familiares um verdadeiro porre. Sim, podem me julgar, mas sou assim mesmo, fazer o quê, né? Talvez seja porque eu tenha uma família pequena e não muito unida. Ao contrário: é um tal de irmã que não fala com irmã (isso porque só tem duas), irmãos ou primos que não se veem há séculos, sobrinhos que só reclamam e xingam os tios e por aí vai. Eles não tinham que gostar imensamente uns dos outros? Não deveriam ser melhores amigos? Afinal, nasceram e se criaram juntos, então, por que tanta disputa e tanto ressentimento? Não seria melhor juntar esforços e deixar as diferenças de lado? Como eu sou filha única – e confesso que sou daquelas que nunca, jamais, em tempo algum pediu um irmãozinho ou irmãzinha para a minha mãe. Já que eu não teria um irmão mais velho (cronologicamente impossível), não seria eu a requisitar um ser para me perturbar a vida, seria?? – não consigo muito entender essas relações ou desavenças fraternais e esses amores ou dissabores familiares. Será que é porque nesses casos não se tem escolha, a gente nasce e tem que encarar esses seres, com todos os humores, resmungos, roncos, remelas e melecas? Mas quando essas escolhas seriam possíveis? E quando um parente seria perfeito?

No início, bem no início, minha mãe tentava reunir as famílias para a ceia de Natal. Sim, famílias no plural, porque depois que você casa, a coisa complica ainda um pouco mais, pois tem a família do marido e a família da esposa. Se dentro de cada uma delas, as coisas já são enroladas, imagine misturar esses dois conjuntos de seres e suas idiossincrasias… tarefa para Hércules nenhum botar defeito. Depois de passar dias preparando o bacalhau (sou filha de Joaquim, ceia não tem peru, mas bacalhau!) para várias pessoas e ver que, ao fim e ao cabo, somente restavam à mesa no dia 24 os mesmos três (minha mãe, meu pai e eu), após as mais variadas desculpas para o não comparecimento, e sempre de última hora, consegui convencer a minha mãe de que a nossa família, nessa altura do campeonato, éramos apenas nós três. E cá entre nós, era mais do que suficiente. Nesse “núcleo duro”, havia sim algumas discussões e muitas reclamações (principalmente com relação a minha preguiça e total falta de habilidade para assuntos de casa. Nunca fui do lar. Muito menos recatada…), poucas demonstrações de carinho (minha mãe nunca foi beijoqueira ou abraçadeira e eu também não), mas havia muito amor e um tremendo respeito pelo outro e pelas nossas diferenças. Ninguém precisava parecer ser alguma coisa para alguém, seguir algum padrão de normalidade. Nesse núcleo, o que importava era sermos, de fato, alguém.

Hoje, posso dizer que a minha família é essa: uma mãe-em-eterna-construção (e haja argamassa para juntar esses tijolinhos…); um avô que se reinventou para continuar a jornada sem sua companheira de estrada; alguns tios que, mesmo a distância, às vezes aparecem para aquecer um pouco a alma; uma filha mais velha de casa e nova de vida, uma filha mais velha de idade e mais nova na casa, que chegou como a heroína de si mesma e que adora “butterfly. Foto: Acervo da autora.

Cresci me perguntando como seria a minha futura família. Que cara ela teria? Na minha mente, sempre achei que a família Doriana tradicional não combinaria nada comigo. Um casal bem vestido, com filhos louros, de olhos claros e sorrisos Colgate (ou seria Kolynos?) à frente de uma mesa de café da manhã farta (tão brasileiro, né? Só que não) não teria a minha cara. Até tentei o formato casal. Juro. Mas não durou muito. O suficiente para eu perceber que “brincar de casinha” seria muito mais complexo do que eu imaginava. E que esse formato de família não me bastaria.

Houve uma época que a minha família era eu, meus pais a 500km de distância, meu anjo da guarda em formato de secretária do lar (que talvez seja meu “casamento” mais duradouro, com muita confiança, apoio mútuo e uma senhora admiração), dois cachorros e alguns amigos reunidos em volta da mesa da sala ou de um bar. Quase todos de fora de São Paulo, essa cidade dita tão fria e que, na verdade, acolhe “familiarmente” todos que nela vem parar, cheios de alguma esperança de “ganhar a vida”. Se essa vitória realmente acontece aqui, eu não sei dizer, mas o fato é que essa cidade cinza permite que aquele presente que a gente, na verdade, ganhou lá atrás, continue se fazendo a cada dia…

Cresci me perguntando como seria a minha futura família. Que cara ela teria? Na minha mente, sempre achei que a família Doriana tradicional não combinaria nada comigo. Foto: acervo da autora.

Depois, essa minha família nada tradicional cresceu e passou a incorporar alguns gatos, que foram chegando de mansinho, felinamente, e conquistaram seu espaço de um jeito tão arrebatador que, o que era apenas um, se transformou em quatro. Louca dos gatos? Por que não? Louca era eu quando ainda achava que eles só faziam conexão com a casa e não com os donos. Hoje, eles me são muito mais familiares do que grande parte da família de sangue. Pois é. Família também pode ser assim.

Faz pouco tempo, esse grupo composto de uma humana central, alguns humanos periféricos e alguns caninos e felinos, aumentou exponencialmente. Em quantidade, responsabilidade, expectativas e…medo. Minhas filhas chegaram. Uma de cada vez. E diferente dos felinos, essas chegaram chegando. Arrebentando minha bolha de privilégios e mostrando que o mundo é muito mais amplo e cruel do que imaginava a minha vã filosofia. Sem exames pré-natal ou anestesia. Vieram rasgando as vísceras e abrindo meus olhos para vidas que eu não imaginava tão próximas e tão esquecidas. Elas estavam bem ali. No Jaguaré. No Butantã. Menos de 6 km e anos luz de distância do meu mundo. Com as suas famílias. De sangue. Sangue que herdaram nas veias e que corria pelas pernas, braços, entranhas. Expondo, em pedaços, feridas de uma sociedade inteira.

Amigos que eu conheci pela escrita e que talvez me conheçam mais do que eu mesma, já que tiveram acesso aos raios-X do meu peito, às ultrassonografias das entranhas, que a gente chama de texto. Foto: Acervo da Autora.

Hoje, posso dizer que a minha família é essa: uma mãe-em-eterna-construção (e haja argamassa para juntar esses tijolinhos…); um avô que se reinventou para continuar a jornada sem sua companheira de estrada; alguns tios que, mesmo a distância, às vezes aparecem para aquecer um pouco a alma; uma filha mais velha de casa e nova de vida, que adora animês e fantasias, que vive no mundo da lua, mas que no momento mais dramático da minha vida foi aquela que assumiu a massagem cardíaca para que eu pudesse respirar; uma filha mais velha de idade e mais nova na casa, que chegou como a heroína de si mesma e que adora “butterfly”, pois sabe que falta pouco para esse casulo arrebentar e ela voar lindamente; quatro gatos; uma cachorra e amigos, dos mais diversos tipos.

Amigos que conheci pelo CNPJ e que agora já estão registrados no meu CPF; amigos de infância, que moram geograficamente distantes, que a gente não se encontra pessoalmente há mais tempo do que a pandemia (sim, o coronavírus piorou a situação, mas a culpa não é só dele. Não mesmo), mas que basta um telefonema, um almoço no italiano da esquina, para a gente ter aquela sensação de que não se via desde ontem; amigas também de infância que eu encontrei online, na pandemia, e que hoje povoam meu cotidiano com tanto afeto e carinho que parece que a ligação é de outras vidas, as irmãs que eu não tive; amigos que eu conheci pela escrita e que talvez me conheçam mais do que eu mesma, já que tiveram acesso aos raios-X do meu peito, às ultrassonografias das entranhas, que a gente chama de texto.

Talvez esse não seja o modelo de família ideal. Mas é o meu modelo. Talvez ele não sirva para todos. Mas está servindo para mim. Se será assim para sempre? Não sei. Não me importa. Talvez família seja aquele lugar em que a gente se sente bem. Acolhido. Amado. Respeitado. Se precisa de um casal, com filhos biológicos, uma casa no campo, não sei. O que aprendi é que família precisa de amor. E isso, a minha família tem.

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.