Maria Paula Curto*

No meio da noite, a menina acorda com uma leve sacudidela em suas costas. Abre os olhos ainda um pouco embriagados de sono e de fome. Tudo está muito escuro e confuso. Será um pesadelo?

A menina dormia tranquila em cima da sua cama improvisada, feita de papelão e pedaços de cobertores doados na campanha do agasalho. Não tinha travesseiro nem ursinho de pelúcia. Sobrava cansaço e um buraco no estômago de quem passava o dia nas ruas, revirando lixeiras em busca de comida ou implorando um pouco de arroz com feijão ou um mero pedaço de pão. Às vezes, o dia rendia e ela conseguia até um copo de refrigerante e um pastel. Seu João da feira de quinta era uma boa pessoa. Noutras, apenas olhares de nojo ou desprezo de quem nunca soube o que era um prato vazio.

Ou uma boca salivando de vontade.

Seu sono era pesado. Dormir era um grande remédio para disfarçar a fome que insistia em doer. Havia noites em que sonhava com muita comida, um verdadeiro banquete, com direito até a batata frita e brigadeiro. Que delícia. Difícil era acordar e perceber que, no lugar da mesa farta, apenas a marca da baba no trapo que aprendeu a chamar de lençol. A mãe ralhava com ela: “já falei para dormir de boca fechada, não falei?” “Desculpa mãe, eu não consigo controlar”. 

Seu João da feira de quinta era uma boa pessoa. Foto: Reprodução.

E a boca permanecia aberta, escorrendo sonhos confeitados.

No meio da noite, a menina acorda com uma leve sacudidela em suas costas. Abre os olhos ainda um pouco embriagados de sono e de fome. Tudo está muito escuro e confuso. Será um pesadelo? Percebe que tem alguém ao seu lado. Sente uma respiração quente perto da sua orelha. Alguns sons estranhos, parecem suspiros e fazem cócegas. Ela ri. Logo em seguida, sente um arrepio nas costas. Tem algo caminhando no meio da sua espinha. Será uma barata? Mas o tio não tinha matado todas? De repente, a coisa para. Fica quente. Volta a se mexer e começa a descer devagarinho, devagarinho e vai até lá. Lá, sabe? Para aquele lugar lá de dentro, aquele lugar que “não pode”. Ela dá um berro: “Nãooooo!” Sente imediatamente uma mão em sua boca e uma voz, que lhe diz: “fica quieta, eu sei que você gosta”. Não, ela não gosta.

E a boca silencia de ódio e de medo.

A menina acorda amuada. Calada. Estranha. Oca. No seu ventre, nem a fome costumeira deu as caras. Era tudo somente um enorme vazio. Ninguém percebe sua agonia. Se arrasta pela casa carregando o peso da sua invisibilidade. Dos seus olhos, agora opacos, escorrem decepções líquidas. Quando a noite chega, o que antes era um momento de alegria, com a possibilidade do sonho da fartura, vira uma angústia concreta, que extrapola a pele e os poros em suores frios e espasmos de ansiedade.

E a boca treme pelo horror que se avizinha.   

Depois de um bom tempo sofrendo em silêncio, a menina resolveu falar. Juntou o pouquinho de coragem que encontrou lá no fundo, lá no único lugar ainda sagrado e intocado do seu corpo, o dedinho do pé, e foi conversar com a pessoa que poderia ajudar. Aquela que deveria ajudar. Sua mãe. Esperou o momento certo. O instante em que somente elas duas estivessem em casa e finalmente, abriu a boca. Sua voz, após tantos dias sem uso, falhava. Quase não se ouvia nada. “Fala logo, garota. Eu tenho muita coisa pra fazer e não posso perder meu tempo com você não. Desembucha, vai.” Respirou fundo. O ar lhe doía. Fechou os olhos – talvez assim fosse mais fácil – e as palavras foram saindo, uma em cima da outra, um tanto atrapalhadas, rápidas e intensas, como chuva de verão. Botou tudo pra fora sem respirar, nem piscar. Tinha que ser de uma vez. Foi. Ficou tão fraca depois desse vômito de letras que teve que se sentar.  “Sua louca! Você não sabe o que está dizendo! Aliás, você sabe sim! Sabe muito bem! Isso tudo é culpa sua! Culpa sua!!!! Eu te odeio! Te odeio!!! E quer saber de uma coisa? Você nunca deveria ter nascido!”

E a boca abriu, atônita com a certeza daquele desprezo.

A menina se levantou. Abriu a porta do barraco e seguiu para a rua. Desceu o escadão, passou na feira – ainda bem que era quinta – e conseguiu devorar um pastel de queijo. Lambeu os beiços e agradeceu o seu João. Que homem legal, o seu João! Com pingos de gordura na regata desbotada, atravessou a rua. O ônibus nem teve tempo de pisar nos freios. Só se ouviu um baque. Surdo. Duro.

E a boca sangrou, marcando, finalmente, sua visibilidade no asfalto.

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP