João Matos

Crédito para a imagem: Untitled, Kati Horna (fotografa Leonora Carrington), 1962
Recentemente, li uma crítica ao livro Triste não é ao certo a palavra, de Gabriel Abreu, feita pelo escritor Alex Castro. No texto, publicado no caderno Ilustrada da Folha de São Paulo em 2023, o crítico parte para o difícil debate da “ética do escritor” e é categórico ao rechaçar o romance de Abreu, por se tratar de uma narrativa que retrata o adoecimento da mãe do autor, vítima do mal de Alzheimer, e que expõe imagens e documentos que pertenciam à sua esfera privada.
Castro, de início, estabelece uma comparação entre a postura de Abreu e a ausência da reprodução fotográfica da imagem comentada de sua mãe por Roland Barthes em A câmara clara (1980). Segundo o crítico, “Barthes não queria trivializar a imagem da mãe”. A comparação me levou a outra obra de Barthes, A preparação do romance, em que ele estabelece uma distinção entre o que ele entre como “íntimo” e como “privado”.
Barthes comenta que o privado estaria relacionado ao que se resguarda na vida pessoal frente à multidão, a uma forma de o sujeito se preservar em quietude, em uma esfera particular. O íntimo, por sua vez, está ligado a uma experiência subjetiva e afetiva que não pode ser totalmente capturada nem pelos códigos sociais, nem pelos próprios sujeitos.
Se considerarmos essa possibilidade, o que Abreu nos oferece é a exposição de um material privado: fotografias, cartas e o diário de bebê pertencentes à mãe do autor, guardados como lembrança de uma vida. É a exposição dessa dimensão que vai se dilatando aos poucos à medida que o narrador vai adentrando a investigação de uma pessoa próxima, sua própria mãe, que, no entanto, vai se revelando também uma desconhecida.
Abreu desloca-se de sua própria subjetividade durante o processo, questionando a possibilidade de contar uma vida por inteiro, mesmo partilhando privadamente dessa vida. Essa poderia ser considerada a dimensão “íntima” da empreitada de Abreu, nos termos barthesianos.
Em meio a tantas narrativas que expõem a vida particular dos autores e assumem uma postura inequívoca sobre uma identidade, o gesto de mostrar o privado para escrutinar o íntimo, pode ajudar a reelaborar o modo como lemos as narrativas em primeira pessoa no presente.